terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Do sol

Porque todos os pequenos ciclos fazem parte de um ciclo maior. Entre cada um e dentro de cada um, há poesia. Então vamos:


Do Sol

Tudo foi um sonho bom,
um pesadelo.
Tudo soa um escândalo
aos ouvidos dos que não sabem.
Não vivem.
Era um piano fora de tom.
Uma cafonice, pieguice.
Era o desejo, mais um.
E só um.
E era tão bom
quanto capaz de doer.
As flores da estação rendiam homenagem
a este desejo.
Era um querer bem
e algo mais.
Não se explica, uma vez mais.
Parou com tudo. Tudo parou:
O trabalho, as drogas,
as peladas no campinho do bairro,
as orações das senhoras piedosas
e as lamúrias das tias chatas.
Arruinou-se.
Regou as plantas, aproveitou e
lavou a calçada. Descobriu
uma nova verdade.
Tão óbvia, tão desnuda
quanto secreta.
Era amor e se acabara.
E se dera sem importar-se,
mas piano desafinado,
a melodia rota.
Uma roupa velha.
Assim mesmo,
o mundo se abriu outra vez,
porque os dias sempre vêm
e o sol iluminará
outras histórias.

Beijos e abraços, pessoal!

NA MINHA VITROLA: NATALIE MERCHANT - King of May.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Às vezes

Foto originalmente postada aqui.

Certamente há um vício em contar histórias infelizes. Ou, claro, é mais fácil contá-las, porque podemos enchê-las de detalhes, de psicologia, de traumas. Mas às vezes pode-se contar histórias felizes. Não tem que ser último capítulo de telenovela. Às vezes o momento simplesmente acontece. Então vamos:

Às Vezes

Ao longe, ainda. Chegava ao encontro marcado. A cada passo, mais de perto observava-a. Era simples estar com ela.

Já a tinha em pensamento e um dia perdeu o medo num canto de estação de trem.


Já não estragava a imagem da mulher atribuindo-lhe o que não era dela.

O sol iluminava-lhes as faces quando os olhos se fixaram. Havia felicidade que não se escondia mais. Mesmo as folhas das árvores daquele parque tinham algo de sorriso.


Beijo leve, um dar-se as mãos. Lentos passos e conversavam uma conversa que dava gosto. Pássaros emolduravam o momento com seus cantares de primavera.


Não havia mistério.

Às vezes a vida era assim mesmo. Simples.


Beijos e abraços, pessoal.

NA MINHA VITROLA: JAMES - Bubbles.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Viver a vida

Ah, o cinema, o cinema... poderia falar mil coisas sobre este filme, Viver a Vida, do Godard. Mas preferiria fazer isto no DDF - o que não é uma promessa. Por isso, "apenas" mostro-lhes um diálogo excelente entre a jovem prostituta e o senhor que ela encontra num bar.


Ela Se incomoda se eu olhar? Você tem o olhar de entediado.

Ele Não estou.

Ela O que está fazendo?

Ele Estou lendo.

Ela Você me paga uma bebida?

Ele Se você quiser.

Ela Você vem bastante aqui?

Ele Não, às vezes. Hoje, por sorte.

Ela Por que você lê?

Ele É meu trabalho.

Ela É engraçado... de repente eu não sei o que dizer; isso acontece muito comigo. Eu sei o que quero dizer. Eu reflito sobre o que quero dizer mas, no momento de dizer, eu não consigo.

Ele Sim, claro!

uma pausa

Ele Você leu os Três Mosqueteiros?

Ela Eu vi o filme. Por quê?

Ele Porque nele, Porthos - isso se passa, na verdade, no Vinte Anos Depois - Porthos, o grande, o forte, um pouco burro, ele nunca pensou em sua vida, compreende? Então, uma vez ele tem de implantar uma bomba numa adega, para explodi-la. Ele o faz. Ele coloca a bomba, acende-a e sai correndo, naturalmente. Mas, de golpe, ele começa a pensar. Ele pensa no quê? Ele se pergunta como pode colocar um pé após o outro. Você já deve ter pensado sobre isso, também. E então ele para de correr. Ele não pode mais, não pode avançar. Tudo explode, a adega cai sobre ele. Ele a segura com seus ombros, ele é forte. Mas depois de um dia, ou dois ele cede... e morre. A primeira vez que ele pensa, ele morre.

Ela Por que me conta essa história?

Ele Sem razão, só por falar.

Ela E por que a gente precisa sempre falar? Muitas vezes devíamos nos calar, viver em silêncio. Quanto mais falamos, menos as palavras significam.

Ele Talvez... mas como se pode?

Ela Eu não sei.

Ele Eu acho que não podemos viver sem falar.

Ela Então é isso, eu gostaria de viver sem falar.

Ele Sim, isso seria bom, não? É como se não amássemos mais. Mas não é possível, nunca vai ser.

Ela Mas por quê? As palavras deviam exprimir exatamente o que queremos dizer... elas nos traem?

Ele Mas nós as traímos também. Nós devíamos poder dizer o que queremos, como já foi feito com a boa escrita. É mesmo extraordinário que um homem como Platão a gente pode ainda compreender - a gente compreende. Ainda assim, ele escreve em Grego, há 2500 anos. Ninguém realmente sabe a língua daquela época, ao menos exatamente. Mas ainda sim passa alguma coisa, então nós devemos poder nos expressar. E nós precisamos.

Ela E por que devemos nos exprimir? Para se compreender?

Ele Nós precisamos pensar e, para pensar, é preciso falar. Não há outro jeito de pensar. E, para comunicar, deve-se falar. É a vida.

Ela Sim, mas, ao mesmo tempo, é muito difícil. Eu acho que a vida deveria ser fácil.

uma pausa

Ela Você sabe, a sua história dos Três Mosqueteiros pode ser muito boa, mas é terrível.

Ele Sim, mas é uma indicação. Eu acredito que aprendemos a falar bem quando renunciamos à vida por algum tempo. É quase... o preço.

Ela Então falar é mortal?

Ele Falar é quase uma ressureição em relação à vida. Quando falamos é uma outra vida de quando não falamos. Então, para viver falando, deve-se passar pela morte da vida sem falar. Eu talvez não esteja sendo claro, mas há uma certa regra ascética que lhe impede de falar bem até olharmos a vida com desapego.

Ela Mas não se pode viver a vida com... eu não sei...

Ele ... com desapego. Sim, mas nós balanceamos, é por isso que devemos passar do silêncio às palavras. Nós balançamos entre os dois porque é o movimento da vida... da vida cotidiana nós nos elevamos a uma vida que chamamos de superior. É a vida do pensamento. Mas essa vida pressupõe a morte da vida cotidiana, a vida demais elementar.

Ela Mas então pensar e falar se parecem?

Ele Eu acredito. Platão o disse; é uma idéia antiga. Nós não podemos distinguir do pensamento o que é o pensamento e as palavras que o exprimem. Analisando a consciência, você não consegue separar o momento de pensar das palavras.

Ela Falando, então, a gente se arrisca a mentir?

Ele Sim, porque mentiras são também parte de nossa busca. Há pouca diferença entre erro e mentira. Não quero dizer mentiras comuns, como "eu prometo ir amanhã", mas não vou porque não queria. Entende? Esses são truques. Mas uma mentira sutil é pouco distante de um erro. A gente procura, e não consegue achar as palavras certas. É por isso que você não conseguia saber o que ia dizer. Você tinha medo de não achar a palavra certa. E eu acho que é isso.

Ela Sim, mas como ter certeza de ter encontrado a palavra certa?

Ele Deve-se trabalhar. É necessário um esforço. Deve-se falar num modo que é certo, não machuque. Diga o que há para ser dito, faça o que tem de fazer... sem machucar, nem ferir.

Ela Sim, um deve tentar ser de boa fé. Uma vez alguém me disse: "A verdade está em tudo, mesmo no erro".

Ele Isso é verdade. Isso não foi visto na França no século XVII. Eles achavam que podiam evitar o erro e, ainda mais que isso, que podia-se viver na verdade diretamente. Creio que não seja possível. Por isso há Kant, Hegel, a filosofia alemã: para nos conduzir à vida e nos fazer ver que devemos passar pelo erro para chegar à verdade.

Ela O que você pensa do amor?

Ele O copro tinha de chegar nisto. Leibnitz introduziu o contingente. Verdades contingentes e verdades necessárias fazem a vida cotidiana. Aos poucos chegamos na filosofia alemã, onde pensamos na vida, com os erros da vida, com as servitudes da vida. E deve-se lidar com isso, é verdade.

Ela O amor não deve ser a única verdade?

Ele Mas, para isso, o amor deveria ser sempre verdadeiro. Você conhece alguem que sabe de cara quem ele ama? Não é verdade. Quando você tem vinte anos não sabe o que ama. Você sabe migalhas, se agarra só à sua experiência. Você diz "eu amo isso", é sempre uma mistura. Mas para ser constituído inteiramente daquilo que se ama, é preciso a maturidade. Isso significa buscar. E é essa a verdade da vida. É por isso que o amor é uma solução, na condição que seja verdadeiro.

Ei, não há muito o que eu queira dizer depois disso. O diálogo diz tudo.

Beijos e abraços, pessoal!

NA MINHA VITROLA: MICHEL LEGRAND - Vivre Sa Vie.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Ficção sobre como voltar para casa

Como se estivéssemos vendo tudo numa tela de cinema...


Ficção sobre como Voltar para Casa

Vejam aquele que conduz a pequena nave ao longe. Ele está sozinho em seu caminho, absolutamente sozinho. Não há alma na via que possa ajudá-lo. No entanto, é um herói. Não daqueles clássicos.

É um herói. Daqueles que rotulamos vaziamente. Qualquer roteirista de seriado ou apresentador de reality show faz isso de um jeito leviano e nada pensado. Mas não os julguemos, porque podem simplesmente ter sido levados pela emoção.

De fato, ele viveu muitas coisas, o que chamamos de "ele fez o seu caminho". Nosso herói. Quase um Ulisses, um Moisés, um Sidarta.

Ele não tem nome. E está voltando sozinho. Mas reparem bem... ele não sabe para onde. E, no entanto, conheceu tantas civilizações. Houve tantas aventuras, impérios que conheceu durante todo esse tempo de universo percorrido. Uns ele ajudou a construir, outros ele contribuiu para derrubar. Houve pessoas. Amigos, aliados, amores até. Mas não era sua gente. Há tempos ele saiu da Terra.

Hoje quer voltar. E tem medo.

Porque não sabe o que vão dizer ou como será acolhido. Sabem que agora ele é um herói? Significará a eles alguma coisa todas as medalhas e honrarias? Quantos que o conheceram ainda estão vivos?

Nem ao menos sabe o caminho. Se por acaso esbarrar no velho planeta azul, poderá dizer que é um alívio. Um alívio...

Talvez de nada valham todas suas aventuras. Talvez a maior aventura seja o retorno. Se é que haverá um.

Tenta não pensar em nada disso - percebem a expressão? - e escapar de sua pior inimiga. A dúvida.

Beijos e abraços, pessoal!

NA MINHA VITROLA: SODA STEREO - Ella Usó Mi Cabeza como un Revolver.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cotidiana

A primeira de um ano em que haverá muito, muito a escrever e a ser lido. Come and read it!


Cotidiana

Hoje o poeta parou
e
fez de escritório

a mesa do boteco.
Ouvia ecos de sua poesia
cotidiana
e os punha no papel,
entre as gentes que passavam,
um gole de cerveja e
um trago no cigarro.
Havia uma mulher altiva
conduzida por seu pequeno cão
e
isso o agradou

e o assustou.

Não era a primeira vez
que alguém vê algo assim.
Afinal, todas as coisas já foram vistas.

Era sua Copacabana sem mar e
os carros, poucos - era início de ano -
rodavam sem pressa
nem Consolação.
O vento semifrio foi emoção,

pois nem sempre se dava ao luxo,
quando todo o demais - cobrança, compromisso, faça-a-social -
era lixo.
Perdoe os chistes bobos e os jogos pobres de palavras torpes do poeta.

É tão somente seu retorno,
sua tentativa de retorno
ao estado ideal.

É possível que exista um? Deveria perguntar-se.

O mundo real não é sua morada.
Ou sente que
habita o sonho. Incorporou-o.

Meu Deus, algum deus, dê a ele realidade!


Perdeu-se em seu lar.

Entre livros não lidos,
objetos
demodèe de tortura,
coelhos mortos sem orelhas e
assustadores palhaços de pelúcia.
Entre palavras e atitudes em desuso.
Reencontrou-se na rua,
num
dia que não era feriado,
mas era como se fosse.
O mundo não para, não vê o poeta.
Por que deveria?

Ele é grato, porque não vêem
o
distúrbio em seu rosto.
Enquanto dois policiais
se encaminham ao balcão,
vê a moça atraente que passa.
Chama-a,
quase em silêncio.
Ela se vai e quase não o enxerga.
Então cumprimenta um dos policiais.

- Mais uma cerveja?, pergunta o garçom

que chega.


- Sim.

E palavras.

Beijos e abraços, pessoal!

NA MINHA VITROLA: THE ROLLING STONES - I'm Free.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Em 2008, eu pirei com... (5)

Girl at Piano, de Caroline Magerl (Alemanha/Austrália).
É assim: o ano mudou, mudei o calendário da parede. Mudo o ritmo. Nada de choro! Ficou lá atrás. Vou de rock 'n' roll. Quero fazer barulho este ano. E se a música não for tão boa, pelo menos que seja divertida.

Estou me mexendo para isso, para que 2009 seja um ano positivamente ímpar.

Mas estou devendo algo aqui, não? Ok, hora de quitar a dívida e falar de música, de verdade.

Eu pirei com...
Música

2008 não me empolgou tanto com música. Talvez porque estivesse voltado aos filmes, talvez porque nos outros anos eu vinha ouvindo tanta música, que neste eu precisei de um pouco mais de silêncio em alguns momentos. Ainda assim, há uma seleção que considero "de respeito". E também há o comentário sobre o show (vi poucos) que mais me impressionou durante o ano. Vamos a ele, primeiro:

Show
Simone Sou é uma força da natureza. Só pude pensar isto enquanto me retirava do Auditório Ibirapuera, após sua apresentação de estreia. Ela, junto às meninas de sua banda, tem o talento da percussão, peito e carisma o suficiente pra ser um grande nome da MPB nos próximos anos. O show contou com participações especiais de Badi Assad, Robertinho Silva, Fanta Konatê, Projeto Cru e Rita Ribeiro, para quem Simone, que antes assinava "Soul" em vez de "Sou", já prestou inúmeros "serviços percussivos", assim como para Zeca Baleiro, Chico César, Funk Como Le Gusta, Mutantes, Zelia Duncan, entre outros.

Lançamentos

Meu ano musical havia começado de verdade com o lançamento do novo (agora nem tão novo) Sigur Rós, Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust. O trabalho dos islandeses mescla umas músicas mais alegres com outras que são sua marca registrada: músicas quilométricas cheias de melancolia, porém belas. Foi um bom começo.

Depois me surpreenderam os britânicos do Coldplay, uma banda que nem me agrada tanto, normalmente. Mas Viva la Vida or Death and All His Friends conseguiu minha atenção por uns meses. Culpa do produtor, com certeza. Brian Eno é o cara. Nem o plágio de Joe Satriani na faixa Viva la Vida tirou os méritos do trabalho.

Mais perto do fim do ano, eu peguei um "pacotão". Os próximos três trabalhos citados fazem parte dele. Os também britânicos do James apareceram bem neste ano, no meu mp5. Hey Ma me pareceu um trabalho com uma vitalidade boa. Nada tãoooo diferente do que eles já faziam, mas com essa vitalidade, só pode me ganhar. Poderia ter uma produção um pouco melhor...

Surpresa mesmo foi o Mercury Rev novo. Além de lançar Snowflake Midnight, os norte-americanos ainda disponibilizaram na rede um álbum só de instrumentais, Strange Attractor. A surpresa maior é a sonoridade, porque as guitarras distorcidas deram lugar a sonoridades eletrônicas. O som climático permanece o mesmo, mas diferente. E esses novos trabalhos não estão nesta listagem à toa.

The Polyphonic Spree lançou seu terceiro disco, The Fragile Army. Coros poderosos, instrumental suntuoso. Já tava na hora desses texanos entrarem numa lista minha.




Para mim e boa parte da crítica profissional, uma das revelações do ano foi Bon Iver, projeto do norte-
-americano Justin Vernon, com For Emma, Forever Ago. A despeito do modismo folk, é um trabalho que está muito acima da média do que tem sido lançado lá fora. Fico esperando por mais, claro!

Ainda posso mencionar os trabalhos de Aimee Mann (@#%&*! Smilers), Glasvegas (idem) e Marcelo Camelo (Sou, que eu nem gostei tanto nas primeiras audições... mas depois...).

Logo, logo disponibilizo uma pasta no 4Shared com algumas das melhores músicas de 2008, destes discos e mesmo de alguns outros. Isso é o que tenho para vocês no momento. Ah... tenho, também, poesia engatilhada pra ser postada ainda nesta semana. Portanto, aguardem.

Beijos e abraços, os primeiros de 2009, que vêm junto com o desejo de sucesso e alegria verdadeira.

NA MINHA VITROLA: PINK FLOYD - Pigs (Three Different Ones) > Sheep > BON IVER - Flume > Lump Sum > Skinny Love.