Um dia de céu limpo, uma dose de conhaque, o porco engravatado que rumina dinheiro alheio, as noites solitárias, as crianças fazendo algazarra, amores possíveis e impossíveis. Tudo o que há sob o sol (e além do sol) é a matéria da poesia.
Este blog é um livro inconcluso com páginas abertas para que você encontre textos escritos com verdade, sentimento e, principalmente, com ALMA.
Uma viagem que nunca termina. Por Alessandro de Paula.
Contatos em palavratomica@gmail.com
Ah, o dia após o outro dia após o outro dia após o ou...
E sempre lidando com as mesmas questões. Pois bem... é assim para quase todos nós. Então aproveito-me da rotina para, apenas, ruminar o tédio. Poesia para vocês:
Breve ruminar de um mamífero bípede sonolento
Rumino tédio, que, em verdade, são tédios - os de cada um dos dias.
Em verdade, todos os tédios, estes soldadinhos apáticos banhados em inexpressão, formam apenas um grande, monolítico tédio.
Sonno lento, quero dormir.
Há outro elemento a ser introduzido neste poema sem graça, sem taxa, sem graxa:
Antes a incapacidade alheia costumava causar-me revolta. Hoje, apenas me torna sonolento.
O que é o "povo"? Qual é a cara do "povo"? Quantos povos há dentro do "povo"?
Dentro daquilo que pode ser, para uma elite intelectualizada, o "povo", ou que imagino ser o "povo" para essa elite, tive um breve momento de comunhão com estas pessoas sempre retratadas como o "povo que ri e que se diverte em seus momentos livres".
Não, não pertenço a uma elite, sou um que vem do "povo" (mas qual?). Apenas não costumo participar da "coisa popular". Apenas transito entre lugares e lugares. Desconfiem de mim, pois pode haver aqui um discurso preconceituoso ou inocente (temo esbarrar na hipocrisia). Porém, embora haja esta introdução, o que quero mostrar aqui é a rara comunhão. Celebro-a com este poema:
O povo
Era um bar agitado num fim de semana depois do trabalho de sábado. Parei.
Era um bar popular e estava lotado. Nas caixas, alto, um samba quando eu tinha a fome de sábado.
Havia um povo feio, suado, malandro, cansado da vida e querendo brincar.
Por isso, eram lindos enquanto esperava meu prato popular.
Uma cerveja à mesa. Depois do calor do sábado, chovia. Também por isso parara.
Chega o prato. De costas ao todo, saciava a fome enquanto saciavam-se de sábado.
Uma mulher dançava. O samba no pé não era meu espetáculo, mas aplaudi. Porque era um povo cansado de sábado calorento-depois-chuvoso no oeste da cidade, quando voltava pra casa. Era um povo tão feio e suado quanto lindo e me encantava.
Eu já partia quando a mulher que dançava pediu um cigarro. Cedi, não havia importância. Conversamos, eu e esta mulher do povo, que havia me notado, disse, desde que eu chegara. Fumamos juntos, à saída do bar, eu e o povo, falando de coisas comuns e já não chovia mais.
Então parti. Fui pra casa contente porque era parte do povo na frente daquele bar.
Sim, eu sou o povo também.
Dividimos o momento de um modo tão surpreendente quanto imcompreensível pra quem não é o povo.
E eu, que não era o povo, que cheguei ninguém, gostei de estar.
que dizem muito. Apenas uma delas necessita contextualização.
Foto: Lula Marques/Folhapress.
Em 1992, Lindberg Farias era o líder da UNE (União Nacional dos Estudantes) e levou a juventude tupiniquim, por meio do movimento dos Caras-Pintadas, a exigir o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Quase 19 anos depois, o ex-líder estudantil, pelo PT do Rio de Janeiro, e o ex-presidente da República, pelo PTB de Alagoas, encontram-se no Senado e cumprimentam-se efusivamente. Suponho que se entenderão muito bem. Collor já se prontificou a ensinar a Farias os macetes do cargo. Isso vai ser bonito, não? Ah!, as voltas que a vida dá! Tudo sob o signo da democracia...
Foto: AFP.
No que diz respeito à segunda imagem... preciso dizer alguma coisa?
Estava no horóscopo que eu inventei: Será um tempo de vontades e realização. De lembrar-se de si, mas também de esquecimentos. A partir disso, prepare-se para o não imaginado.
Cumprem-se os 365 dias. (É, conferi no reloginho do note, pra ver se não tinha sido ano bissexto. Não foi.)
Não houve nesses dias um em que não tivesse corrido, amado, falado sozinho, brigado com o relógio, esperado que alguém me chamasse ou chamado alguém.
Ouvi muita música, ouvi queixumes de quem não aguentava o ritmo de trabalho, ouvi uma voz especial no ouvido. Disse coisas bonitas e outras tristes. Perdi o controle, o equilíbrio. Encontrei-me de alguma forma. Ou estou em curso disso - afinal, todas as coisas estão em curso, não é? Os processos não param pra ver fogos de artifícios, por mais belos que sejam.
Bebi menos, li mais.
Trabalhei em vários lugares. Em cada lugar, o tempo de um projeto. Travei conhecimentos, fiz amigos.
Escrevi pouco, tenho dois projetos em mente, dos quais voltarei a falar no momento certo.
Acompanhei a vida dos amigos. Vi gente cair e também vi gente se levantar. Tive minha queda, num momento importante, e pensei que tudo estava perdido, mas pude me levantar. O melhor da queda, dizem alguns, é rir-se de si mesmo. Eu digo, como outros dizem, que é seguir em frente. Aqui estou.
Fiz tantas coisas, que um post simples em um simples blog não daria conta. Os 365 dias e noites do ano são testemunhas e isto basta.
Estou pronto, com minha grande barriga, com meus pés fortes e com uma reserva a mais de suor e neurônios pra 2011. E com amor no peito, porque não se vive sem amar a vida.
Vem, que eu mato no peito e mando pro gol, Jabulani!!
Até 2011, amigos!! Que Nina Simone, logo abaixo, os abençoe!
Desculpe, mas se uma pessoa conhece outra e tem prazer em conhecê-la, e então leva-lhe dois soldos ou duas liras a mais por um serviço que deveria ter sido gratuito devido ao grande prazer que teve em conhecê-la...
... quem é esta pessoa, senão um homem que ofende o mundo?
Às vezes confundimos as pequenezas do mundo com as ofensas ao mundo."
Este breve trecho do diálogo final em Gente da Sicília, filme do casal Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet me parece toda filosofia do mundo.
Claro, não é toda. Mas parte importante. Por isto, quis dividir este pequeno trecho com vocês.
Assisti a este filme, o novo de Julio Medem, que está em cartaz em Sampa e, provavelmente, noutras cidades.
Curiosa e diferentemente de outros filmes dele já vistos por mim (Os amantes do Círculo Polar, Lucía e o sexo e Caótica Ana), que abordam períodos de vida mais longos de suas personagens, neste Um quarto em Roma, Medem se atém a um momento breve da vida das protagonistas, a russa Natasha, que no decorrer do filme revela-se Dasha, e a espanhola Alba. E sai-se muito bem.
O filme trata da relação tão efêmera quanto intensa de duas mulheres que se encontram na noite romana, enquanto afogavam suas mágoas. Vão para um ambiente perfeito: um quarto de hotel em Roma, com gosto de história, de Renascimento.
Fantasia e realidade se mesclam. Os nomes e histórias que inventam servem para desnudá-las, para trazer suas verdades à tona. Há um amor que precisa ser vivido, ainda que tenham, à alvorada, que despedirem-se - não sem sofrimento - e retornar às suas vidas.
A nudez e a relação homoerótica nunca são ordinárias neste filme. É o sentido contrário do que a grande mídia quase sempre expõe, "ordinarizando" estes elementos. (Bom... o que a mídia não "ordinariza", nestes dias?)
Fiquei a pensar se amor não é o momento e depois tudo se esvai. Ou se amor é outra coisa que não sei o que pode realmente ser. Outra ilusão grandiosa? A maior de todas as quimeras?
Bom, depois de minhas constatações e divagações, apenas concluo dizendo que...
Alimenta-se de sorrisos. De sol. De sombra. De água fresca, embora prefira cerveja. Alimenta-se do carinho, de amigos. Da luz e das cores das noites festivas.
E, ainda assim, não é um ser vampiresco em seu túmulo arquitetando tolos planos de conquistas vazias.
Nem oculta o que tem de mais belo por autossabotagem, banhando-se em ilusões de consumo, mostrando-se assim artificialmente seguro em sua torre de cristal que lentamente desmorona.
É! Quanto mais high, mais low.
Desculpem tal poeta, tristes pessoas das trevas do mundo. Não descerá novamente ao inferno. Não estará em busca de uma Beatriz que não há.
Não será um poeta maldito. Tampouco bendito. Poeta apenas humano que ainda tenta aprender a amar, que sabe o árduo do caminho, porém não desiste. Pois sabe que além dos clichês, do trato e destrato social, das palavras mal-ditas, dos cigarros e pulmões enegrecidos, há redenção. Uma religião sem bandeiras.
O poeta acredita em vida nesta vida.
A morte nesta vida deixa aos habitantes da torre de cristal que já se esqueceram de como sorrir.
Já não sou tão novo e cada vez mais, conheço os mares onde navego. Um pouco de leve poesia em meio à tempestade não será ruim.
A arte da navegação
Existir e não se se perder com os ruídos ao redor. Existir e não lamentar o passo que já é passado.
Içar velas e navegar. Vil vidas, mil mares, mil vidas.
O marulho, marujo, é o que há de levar-nos ao próximo destino. Haverá um porto onde atracar.
Prosseguir alegre na calmaria e valente na tempestade.
Já não tão novo. Trinta e sete longas jornadas. Existo e agradeço a todos que, de algum modo, viajaram neste barco. Aos que viajam. E aos que ainda terão os pés nesta embarcação humilde, porém forte e grávida de novidades.
Luz pra quem é de luz, trevas pra quem é de trevas. Beijos e abraços aos amigos.
Quando o mundo está estranho. Mas, para o mundo parecer estranho, há que haver um parâmetro inicial de como alguém enxergou o mundo pela primeira vez.
Então, em algum momento, as coisas pareceram sair do lugar.
Os eventos vão atirando estes pequenos e grandes objetos nas nossas caras, por que tudo está sempre mudando. Nem sempre percebemos, até que sejamos atingidos.
Então dizemos: "o mundo está estranho".
E isto está acontecendo. Cada vez mais rápido. "O-mundo-está-estranho" não é informação nova. Toda hora uma estranheza nova.
Irão os objetos do mundo serem recolocados em seu devido lugar alguma vez? Improvável.
Por isso, o poema. Vários objetos que atravessam o ar e nos atingem. Eles vêm de diversos pontos. Não sabemos bem o que são. Apenas um vislumbre rápido.
Uma tentativa de não organizar organizando, não fixar fixando. Ou apenas mais um poema caótico no mundo, a ser atirado no ar.
Tudo fora do seu devido lugar
Que fique bem claro: chiste é chiste, not shit. Letra de música não é poema, mas pode ser poesia — sobretudo é letra de música.
A intelectualização de alguns temas não deveria ser proibida, porém por vezes é improdutiva. Masturbação.
Ou antimasturbação, amor.
Sinto tesão pelas ideias, mas por favor, não abuse.
O ministério da luz agradece.
Hippie de hoje é fake. Woodstock hipócrita. Hollywood já foi sucesso, hoje é câncer ou impotência ou...
Tempos terríveis em que vivemos.
Da área VIP eles riem de nós, amor. Ouquei, vamos sacudi-los. Ainda que bregas, porque chiques como eles não interessa ser.
Brainstorming. Na rede elétrica em meu corpo recebo os raios.
E funciono.
Não sou máquina, não repito algoritmos. Rompo-os quando consciente.
Ao menos.
A mais, tenho amor. Estava em falta no mercado. Não paz nem guerra, Tolstói.
Não é minha praia. Nem o festival, que eu já desconfiava que ia ser um "Woodstock fake" (ora, leiam algumas impressões aqui); tampouco a banda, que empolga muitos mas nunca me ganhou de verdade.
Mas pra quem gosta, aí vai: show completo do Queens of Stone Age no SWU, em 11 de outubro, Itu - SP.
Beijos e abraços, pessoal! Mais tarde, ainda hoje, haverá poema novo aqui.
Poema de poesias. Daqueles que dizem nada e... tudo.
De flores escrevo poesias para rosas é isto que faço e sou um sol uma noite fria sucintamente penetrante nos corações vazios nos ouvidos mudos já fui também coisa para quem não tem olhos ou boca a tarde na praia ou a lua constante faço isto para ninguém e para mim escrevo prosas para marias
Vulnerável, quer a invulnerabilidade. E isto apenas torna mais humano. Não é incrível que haja ainda poesia em todas essas criaturinhas que se chocam buscando um espaço no metrô de uma cidade grande?
Ou isso está somente no poeta? Ah ah ah!
Bom, vamos à próxima!
Verbo e homem
Quis ser um verso de poesia. Poemas e seus versos, eles só provocam. Não são afetados por coisa alguma. Mas não era.
Carneosso. Sentimento.
Pode morrer por dentro, mas o verso fica.
Ou era?
Era sua paixão, seu ciúme. Era aquela briga e reconciliação. Dedo apontado na cara, olhar perdido e encontrado. Beijo molhado, incendiário. Mil juras. Amor imaginado e consumado. Voz no telefone, tensão do primeiro papo. Tesão.
Presente mais lindo do mundo. Embrulho, desembrulho. Satisfação e sono e acordar e encontrar e mais mais mais...
E verso também.
Verbo quer ser homem, carneosso. Sentir. E viver.
Cada um quer um pouco mais do que tem. Alguns já nem se lembram disso e a "coisa" fica ali, escondida. Mas há.
Show dos ingleses do Tindersticks em 8 de agosto de 2008, no Festival Sudoeste, em Zambujeira do Mar, Portugal. A banda é "classuda", seu repertório, pra quem não conhece, é uma mescla cheia de sensualidade, tristeza e delicadeza. Seus arranjos são de uma de uma suntuosidade à beira da perfeição. Tomara que gostem.
Formação Stuart Ashton Staples - voz, guitarra Neil Timothy Fraser - guitarra, vibrafone David Leonard Boulter - teclados, percussão
E aí, gostaram? Espero que sim. Beijos e abraços, pessoal!