Um dia de céu limpo, uma dose de conhaque, o porco engravatado que rumina dinheiro alheio, as noites solitárias, as crianças fazendo algazarra, amores possíveis e impossíveis. Tudo o que há sob o sol (e além do sol) é a matéria da poesia. Este blog é um livro inconcluso com páginas abertas para que você encontre textos escritos com verdade, sentimento e, principalmente, com ALMA. Uma viagem que nunca termina. Por Alessandro de Paula. Contatos em palavratomica@gmail.com
quinta-feira, 26 de outubro de 2006
Videar # 9998 - Elliott Smith Clipe 3
Elliott Smith... talvez o último ídolo possível. Um músico de composições singelas e ao mesmo tempo sombrias, letras nas quais senti minha alma espelhada. Não sempre, mas muitas vezes.
Dia 21 de outubro marcou o terceiro aniversário de morte de Elliott. Não foi o álcool, não foram as drogas. E, eu particularmente, não creio na suspeita de que sua então namorada, Jennifer Chiba, tenha esfaqueado Elliott no peito por duas vezes.
Tinha 34 e estava limpo. Além do álcool e das drogas, também largara os antidepressivos e o tratamento. Bom, de acordo com a versão oficial, ele suicidou-se.
Ele conhecia a dor. Conhecendo e expondo sua dor, expunha também a nossa. Não é, certamente, para qualquer um acompanhar. As pessoas parecem muito propensas a escapar da dor. Não as condeno, mas prefiro encarar os meus abismos, como já coloquei em alguns textos. Não que eu tenha de ser todo o tempo triste, e não o sou, mas Elliott ajuda. Ele me entende, de certa forma.
E ele era, além de tudo, um músico íntegro.
Por isso, para marcar a data, posto acima estes três clipes de Elliott Smith, para que vocês conheçam ao menos um pouco do seu trabalho.
Beijos e abraços, pessoal!
quarta-feira, 25 de outubro de 2006
Brasília, as fotos





Curtiram as fotos? Espero que sim. Há um bocado mais a ser visto clicando aqui. Beijos e abraços, amigos!
NA MINHA VITROLA: PULP - Common People.
segunda-feira, 23 de outubro de 2006
Sessão Videar # 9999
Estreando as postagens de videoclipes do blog. Uma sessão que chamo de Videar, em homenagem a Stanley Kubrick e seu Laranja Mecânica. Semanalmente ou com uma periodicidade menor - vocês podem opinar a respeito disso -, procurarei deixar algum bom clipe pra vocês. Hoje é Glósóli, da banda islandesa Sigur Rós. Espero que vocês gostem.
Beijos e abraços!
segunda-feira, 16 de outubro de 2006
Canções, mulheres, um amor para voltar a viver e breves agradecimentos
CD novo do Fito Páez. El Mundo Cabe en una Canción. Pode ser que o mundo realmente caiba em uma única canção (ou em uma pequena coleção delas), mas dos comentários que li a respeito, não deve chegar a ser um lançamento que entusiasme. Eu, como admirador, só ouso comentar depois de ouvir, apesar de que realmente o argentino a muito não lance um trabalho que me deixe de queixo caído (o último foi Abre [1998], mas Moda y Pueblo [2005], me pegou de jeito, embora circunstâncias especialíssimas que não meramente a música tenham me levado a tal condição - depois, caiu no limbo do esquecimento).O ótimo Digestivo Cultural, em seu número 300, "malcompara" os efeitos dos novos CDs de Fito e Caetano (por sinal, não gostei de Cê, o último disco do filho de dona Canô), traçando também paralelos sobre a popularidade de ambos fora de seus países. Um pouco por conta de Fito ter sido casado com Cecilia Roth, estrela de Tudo sobre Minha Mãe e de outros filmes de Almodóvar.
A conferir.
E por falar em Almodóvar...
Antes da minha viagem à Brasília, tive a oportunidade de assistir a cópia de Volver, o novíssimo filme do gênio Pedro Almodóvar. O fato é que gostei, mas não tanto. Talvez tenha sido a expectativa. Mas não, Almodóvar não chega a perder a mão. Simplesmente o resultado final me agradou menos do que obras-primas como Tudo sobre Minha Mãe (1999) e Fale com Ela (2002).Volver tem a cara de La Mancha, região em que Almodóvar nasceu, e ali se conta a estória de uma família de mulheres marcadas pela selvageria masculina. Vejo, sobretudo, como elogio à mulher e mãe de família forte, aquela que encara todos os golpes e corre o risco de se arrebentar, mas não arrebenta. Vejo esta mulher na forma de Raimunda a personagem de Penélope Cruz. E também na figura da "fantasmagórica" e engraçada Irene (Carmen Maura).
Creio que outras leituras deste filme possam ser feitas. Pretendo revê-lo algumas vezes, inclusive no cinema (desde Carne Trêmula, 1997, tenho visto todas as películas do Mestre na telona, não será agora que farei diferente). Talvez eu conte mais. Talvez vocês possam acrescentar alguma análise, assim que o filme estiver em cartaz nas salas tupiniquins.
Um filme que assisti durante minha passagem por Brasília e que merece todas as atenções é o singelo Elsa y Fred, dirigido por Marcos Carnevale. É a estória de dois idosos que se tornam vizinhos. Ele, recém-viúvo e sem encontrar um sentido pra continuar vivendo. Ela, uma senhora cheia de vida, um tanto trapaceira e que tem o desejo de repetir a famosa seqüência da Fontana di Trevi, com Anita Ekberg e Marcello Mastroianni em A Doce Vida. Mas ela esconde um terrível segredo...
É delicioso acompanhar o desenvolvimento da relação entre ambos. É um daqueles filmes que levam ao riso fácil e também às lágrimas, se aquele que assistir for do tipo emotivo. Vale muito, muito a pena.
Sobre minha viagem à Brasília, cabe aqui agradecer muitíssimo à minha amiga Carla, que me proporcionou dias invejáveis a partir de sua atenção inestimável, a aguda inteligência e jovialidade e extremo bom gosto. Também não devo me esquecer da Adriana com o violão do Luan e, também, frente ao micro declamando Álvaro de Campos. Pessoas como vocês fazem da verde Brasília uma cidade especial. Espero retornar um dia, assim como espero recebê-las na minha cinzenta Sampa.
Em breve, muito mais sobre a viagem, incluindo fotos.
**************
Uma proposta aos amigos próximos: quero assistir em breve A Dália Negra, um suspense que me parece ótimo. Tenho alguns motivos para convidá-los. 1) Além de ser provavelmente um baita filme com um baita elenco, incluindo aí a estupenda Scarlett Johansson - sei, ela é a queridinha de muita gente atualmente e isso enche o saco... mas e daí? - e 2) Tenho tido o desprazer de cochilar durante algumas sessões e gostaria que alguns de vocês estivessem juntos para evitar isto. Ajudem um amigo perto da senilidade... eh eh eh! Beijos e abraços a todos vocês.
NA MINHA VITROLA: CORDEL DO FOGO ENCANTADO - Transfiguração (CD completo).
Fim anunciado
Que pena, o Madredeus vai acabar...

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u65187.shtml
Que pena, nada! O grupo já mostrou o que tinha de mostrar e, na minha opinião, em seus dois últimos trabalhos - Amor Infinito (2004) e Faluas do Tejo (2005) - já havia esgotado suas possibilidades musicais.
Farão ainda algumas apresentações em terras de Espanha. Depois, adeus! Cada um seguirá seu caminho e creio que aí, sim, trarão algo de interessante e novo a se ouvir.
Boa sorte a cada um deles. Espero que nossos ouvidos sejam agraciados por novos projetos e grande música.
Beijos e abraços, meus amigos!
NA MINHA VITROLA: MADREDEUS - Haja o que Houver.
segunda-feira, 9 de outubro de 2006
Mudando de idéia

Sei, sei... vai parecer confuso e vou certamente passar atestado de porralouca, mas as pessoas mudam de idéia. Eu sou uma pessoa. Portanto, posso mudar de idéia. Também sei que se trata de uma construção clichê esta anterior, enquanto vivemos tempos pouco comuns.
O fato é que cedo. Se é tarde ou nem tanto para a minha capitulação à idéia de votar no cara que eu considero "o menos pior", fico com o nem tanto.
Esse cara, o que hoje considero o menos pior, sempre aparentou estar ao lado das classes menos favorecidas. Tem um histórico considerável, sendo um dos fundadores de uma instituição que se desenvolveu com a bandeira dos trabalhadores. A quatro anos, era o herói da maioria, mas coisas aconteceram e redescobrimos que ídolos podem ter pés de barro. Confiar, eu não confio, mas creio que ele tratará de não se comprometer a ponto de sofrer um impeachment. A cobrança existirá desta vez, muito maior do que antes. E somos (ou precisamos fazer) parte disso, inclusive.
O que eu sei mesmo é que não engulo aquele grupo de aves de bico grande e seus eternos parceiros. Sei o que fizeram com o país. São muitíssimo dissimulados esses bicudões. Tiram o seu da reta e abrem as pernas para o estrangeiro. Lembro-me que empresas importantes caíram nas mãos de gringos que só fazem obter lucro, oferecer produtos e serviços de qualidade ruim e empregar mão-de-obra barata. Ops... alguém aí falou Telefonica? Mero exemplo.
Quanto ao representante bicudo deste pleito, o que tenho a dizer? Tomem cuidado, é um ator. Por trás daquela aparência sóbria de Picolé de Chuchu há um gênio do mal que trabalhou constantemente para sucatear a educação em São Paulo. E, claro, conseguiu. Com sua carinha de "olha-eu-fiz-isso-para-o-seu-bem", vai fazer o quê? Vender a Amazônia? Teremos a Zona Amazônica Japonesa, a Zona Amazônica Norte-Americana, e por aí vai? Tá, estou pirando, fazendo ficção, já. Mas que pode acontecer, pode.
Portanto, ainda que muito desconfiado, votarei naquele barbudão que ainda deve estar um pouco atônito com a surra que levou num debate no qual era muito, muito fácil bater nele. No momento, até o Picolé de Chuchu o faz. Mas quem, raios, poderia fazer o que é realmente necessário para esse país ser um pouco mais bacana de viver?
Eu tenho uma resposta. Quero as de vocês.
Antes, quero dizer porque mudei de idéia. Foi numa conversa durante o sarau. O colega Nelson, a princípio sem saber, despertou em mim o pavor que tenho da possibilidade de venderem, em pedacinhos, o Brasil. Os bicudões esquartejadores são craques nisto. E não me esqueço de que, antes do termo "mensalão" ser criado, escândalo semelhante foi revelado e abafado durante o governo do presidente que fora sociólogo.
O sarau, que transcorreu maravilhoso - a quem queira saber - foi sendo e sendo, os textos se sucediam e até alguns talentos foram revelados. Ainda que eu já tivesse mudado de idéia, achei bacana ler Eu Digo Não (post anterior), pra suscitar mais discussão. Sim, era o momento de lançar o inferno sobre o Gruta... eh eh eh! Comentei com o Nelson que faria isto e ele disse que leria em seguida o texto abaixo, de Ignacio de Loyola Brandão. Sem dúvida, o golpe de misericórdia.
Confiram vocês também. Eu não sei se esta é a disposição correta dos parágrafos, então posto-o de acordo com a versão que consegui na rede.
O Homem que Viu o Lagarto Comer Seu Filho
Ignácio de Loyola Brandão
Para Ligia Sanchez
Era uma noite de terça-feira, a eles viam televisão deitados na cama. Quase uma da manhã, estava quente. Ele levantou-se para tomar água. A casa silenciosa, moravam num bairro tranqüilo. Não havia ruídos, poucos carros. Ao passar pelo quarto das crianças, resolveu entrar. Empurrou a porta e encontrou o bicho comendo o menino mais velho, de três anos a meio. Era semelhante a um lagarto e, na penumbra, pareceu verde. Paralisado, não sabia se devia entrar e tentar assustar o animal, para que ele largasse a criança. Ou se devia recuar e pedir auxílio. Ele não sabia a força do bicho, só adivinhava que devia ser monstruosamente forte. Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário. E meio míope, ainda por cima. Se acendesse a luz do corredor, poderia verificar melhor que tipo de animal era. Mas não se tratava de identificar a raça e sim de salvar o menino. Ele tinha a impressão de que as duas pernas já tinham sido comidas, porque os lençóis estavam empapados de sangue. E a calça do pijama estava estraçalhada sob as garras horrendas do bicho repulsivo. Como é que uma coisa assim tinha entrado pela casa a dentro? Bem que ele avisava a mulher para trancar portas. Ela esquecia, nunca usava o pega ladrão. Qualquer dia, em vez de um bicho, haveria um homem roubando tudo, a televisão colorida, o liquidificador, as coleções de livros com capas douradas, os abajures feitos com asas de borboletas, tão preciosos. Pensou em verificar as portas, se estavam trancadas. Porém, percebeu um movimento no animal, como se ele tentasse subir para a cama. Talvez tivesse comido mais um pedaço do menino. Precisava intervir. Como? Dando tapinhas nas costas do lagarto-não lagarto? Não tinha armas em casa e o cunhado sempre dizia que era coisa necessária. Nunca se sabia o que is acontecer. Ali estava a prova. Queria ver a cara do cunhado, quando contasse. Não ia acreditar e ainda apostaria duas cervejas como tal animal não existia. Pode, um lagartão entrar em casa através de portas fechadas a comer crianças? Olhou bem. Comer crianças não era normal, nem certo. Devia ser uma visão alucinada qualquer. Não era. O bicho mastigava o que lhe pareceu um bracinho e o funcionário teve um instante de ternura ao pensar naqueles braços que o abraçavam tanto, quando chegava do emprego, à noite. Uma faca de cozinha poderia ser útil? Mas quanto o bicho o deixaria se aproximar, sem perigo para ele, o homem? Tinha que impedir o lagarto de chegar à cabeça. Ao menos isso precisava salvar. Não conseguia dar um passo, sentia-se pregado à porta. Preocupava-se. Todavia não se sentia culpado. Era uma situação nova para ele. E apavorante. Como reagir diante de coisas novas e apavorantes? Não sabia. Preferia não ter visto o lagarto, encontrar a cama vazia, as roupas manchadas de sangue. Pensaria em seqüestro ou coisas assim que lia nos jornais. Seqüestro o intrigaria, uma vez que ganhava pouco mais de dois salários mínimos e não tinha acertado na loteria esportiva. Era apenas um funcionário dos correios que entregava cartas o dia todo a por isso tinha varizes nas pernas. Se gritasse, o lagarto iria embora? Continuou pensando nas coisas que podia fazer, até que a mulher chamou, uma, duas vezes. Depois ela gritou a ele recuou, sempre atento para saber quanto o bicho tinha comido do filho. A medida que recuou perdeu a visão do quarto. Sentindo-se aliviado, pelo que não via. A mulher chamava e ele pensou: o menino não chorou, não deve ter sofrido. Voltou ao quarto ainda com esperança de salvá-lo pela manhã a decidiu nada dizer à mulher. Apagaram a luz, ele se ajeitou, cochilou. Acordou sentindo um cheiro ruim e quando abriu os olhos viu sobre seu peito a pata, parecida com a de um lagarto. Paralisado, não sabia se devia tentar assustar o animal, ou tentar sair da cama a pedir auxílio. Pelo peso da pata, o bicho devia ser monstruosamente forte. Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário. Aí se lembrou que tinha dois sacos de cartas a entregar, era época de Natal a havia muitos cartões das pessoas para outras pessoas dizendo que estava tudo bem, felicidades. Tinha que tirar este bicho de cima. Não, hoje não haveria entregas. Nem amanhã, por muito tempo. O lagarto estava com metade de sua perna dentro da boca.
Ah, sim... a plantinha ali no início do post é justamente o Pau Brasil. Aguardo comentários sobre o conto, a planta e a mudança. E sobre o que mais vocês quiserem comentar. E, antes que me esqueça, amanhã estarei em Brasília, visitando uma amiga. Resolvi passear um pouco neste feriado prolongado e acredito que vai ser bem bacana. Desejem-me boa viagem. :-)
Beijos e abraços!
NA MINHA VITROLA: HAMMOCK - An Empty Field > BRIGHTBLACK MORNING LIGHT - We Share Our Blanket with the Owl.
sexta-feira, 6 de outubro de 2006
Eu digo não

Um, famoso pelo apelido "picolé de chuchu", é responsável pelo golpe de misericórdia na educação em São Paulo. O outro é conhecido por "não saber de nada" e, no entanto, ele e sua turma diziam que fariam um governo diferente, livre de corrupção. Levou nossas esperanças e vimos que tudo continua igual. A turma vermelha apenas leva a desvantagem de não ter a grande mídia a seu favor, portanto, os escândalos vêm à tona com maior facilidade.
Encaremos a seguinte idéia: eu vou à barraca de pastéis, compro três e a menina da barraca esquece de cobrar um deles. De verdade, eu não falo que ela esqueceu de cobrar. Vou embora com meus pastéis e meu dinheiro, que deveria ser dela. Pobre moça, mas não sou santo. Esta é uma pequena corrupção.
Não diria que todo o povo brasileiro é corrupto, mas ninguém é tão purinho assim (apesar que há aqueles que devolvem uma carteira cheia de grana para a pessoa que a perdeu). Uns vendem votos por um prato de arroz com feijão, outros para conseguir concessão para operar no raio que o parta. E por aí vai...
A diferença é que eles, seja qualquer o lado em que estejam, lidam com milhões.
Não à toa, tive nos últimos dias a cabeça repleta de zeros. Estes acabaram descarregados na urna eletrônica. E será assim no dia 29. Sim, digo não para eles, mas não digo que façam o mesmo, não sou prepotente e arrogante a ponto de querer impor meu pensamento. Isto é apenas um desabafo, amigos.
Bom... assunto polêmico, não? Claro, não peço que concordem comigo. Podem até me bombardear, que eu pego essa bomba, mato no peito e faço um golaço... eh eh eh! Brincadeirinha. Mas toda opinião que não seja algo oportunista será bem-vinda.
Difícil de ler? Cliquem aqui. Sejam brasileiros e não desistam nunca... eh eh eh! (Brincadeirinha...)
Beijos e abraços!
NA MINHA VITROLA: ELLIOTT SMITH - Waltz # 2 > ASOBI SEKSU - Taiyo.
segunda-feira, 2 de outubro de 2006
Sarau dos sem-turno
Beijos e abraços, amigos!NO MEU HD CRANIANO: Algumas preocupações relacionadas a umas questões muito, muito particulares.
segunda-feira, 25 de setembro de 2006
Quase silêncio

Se estiver difícil de ler, o melhor a fazer é clicar aqui para ver a imagem ampliada. Beijos e abraços, amigos!
NO MEU HD CRANIANO: Uma energia para criar que não se explica, mas a necessidade de dormir também existe.
domingo, 24 de setembro de 2006
O gosto do papel velho

O Gosto do Papel Velho
um estranho gosto de página de livro em minha boca
a pálida noção do que conquistei e depois abandonei
para apenas voltar.
o tempo está presente no ar com seu odor azedo
porque os dias andam assim, estagnados.
consumindo e sumindo e reassumindo o controle mas nunca basta
o ciclo que...
aquela vasta biblioteca não faz sentido sem ser devorada
sinto que, de alguma forma, tornei-me rato de mim mesmo
um personagem-roedor que se devora
e desaparece no meio do "boa noite".
como o livro termina, não sei.
É isso, meus amigos. Esse post também é para dizer que começo o árduo processo de escolher as poesias para o próximo livro. Desta vez, de verdade. Beijos e abraços!
NA MINHA VITROLA: CASSIA ELLER - No Recreio.
quarta-feira, 20 de setembro de 2006
Brasília

E, por favor... não pensem em política... eh eh eh!
Beijos e abraços, amigos!
NA MINHA VITROLA: FAINT - Agenda Suicide > SUPER FURRY ANIMALS - Something for the Weekend.
terça-feira, 19 de setembro de 2006
Obscuro, iluminado

Em tempo, porque a última apresentação é num ainda longínquo 15 de dezembro:
No último dia 07, estive no SESI Paulista para ver a montagem de Timão de Atenas, um texto obscuro de William Shakespeare, realizada pelo grupo Teatro Promíscuo. Não me arrependo, gostei muito e, apesar da demora, conto agora pra vocês. Ou não conto. Mostro o que escrevi no site do Teatro Promíscuo. Creio que vocês possam ter uma idéia do que é a peça, a partir disto, embora eu pareça muito bajulador... eh eh eh! Bom, com bajulação ou sem, quem puder, compareça.
Um Shakespeare obscuro. Obscuro por não ser tão difundido como outras obras, obscuro porque é a natureza de seu texto.
Mas a montagem realizada pelo Teatro Promíscuo, esta sim, brilha. E seu brilho traz aos nossos olhos esta condição de ser humano, tão pequeno. Atenas, Inglaterra, São Paulo, Kinshasa ou qualquer outro lugar. Os seres humanos são iguais. A história que é ambientada em Atenas, contada por um inglês já foi vista por mim inúmeras vezes, quase sempre em São Paulo*. Uma vez no palco, mas tantas vezes no decorrer da vida. Cada um de nós pode ser testemunha, alvo e agente da ganância, da ingratidão e da avareza dos "amigos" de Timão. Assim como da generosidade e da ira do antigo mecenas.
Este é o ser humano em um de seus retratos mais sombrios.
Enfim, adorei! Parabéns e abraços a todos!
* Sim, a vida real oferece muitos exemplos.
Bom, creio que não tenho mais o que dizer por hoje, meus amigos. Um balcão de bar, alguma conversa e umas geladinhas me aguardam. Beijos e abraços!
NO MEU HD CRANIANO: A vontade de fazer exatamente aquilo que digo no parágrafo acima. 3 minutos + todo o trajeto de ônibus até o local desejado.
Contrafluxo

A vida é às vezes um tanto esquisita. Tanto para fazer, tanto para conquistar e, ao mesmo tempo, estar aqui, entre quatro paredes tentando representar um papel. Há aqueles dias em que você é astro. Ou mero figurante. Mas basta? Satisfeito, num dia. Noutro, a coisa toda, esse monstro chamado vazio, chega e chega com força, devastando poses e palcos. Então nada importa.
Bom, o que não tem a ver com o que eu dizia no parágrafo acima é o fato de eu ter encontrado um texto perdido na minha carteira, um texto de balcão de bar, mas que, se urdido em outro lugar, ainda assim creio que teria nascido com alguma alma. Comprovem:
Contrafluxo
um brinde ao que pode ser transformado:
transtornos tornados deleite
dores agora sorrisos.
drama nem sempre é drama
nem comédia sempre há.
o outro, ao sorver o líquido áureo transparente
já não é aquele,
o que se indigna com bugs de máquinas
maus humores de chefes
e instantes em que vida não é.
atirados são os restos de sofrimento nas latas de lixo
das metrópoles enquanto aquele segue o contrafluxo
dos que vão para as casas, às seis e meia, às sete, às oito
e busca o consolo das roupas atiradas a esmo pelo quarto, na hora do amor.
a importância de os fios de cabelo se tornarem brancos não existe
perante a inevitabilidade da passagem da areia para a parte inferior da ampulheta...
é que há as limitações, e ele pensa a respeito, ainda que seja um pensamento
sobre um futuro que ainda não é,
que será, a não ser que se sobreponha um trágico incidente.
flutua, devaneia e esquece que o básico é essencial:
poucos fazem e muitos dizem.
não há mistério nas melhores horas
nem labirinto ou minotauro.
há um tesouro no profundo do ser, oculto e acessível, ao mesmo instante
(acessível a ponto de assustar. mas não, não é mistério).
a despeito de todas as coisas, um simplesmente deseja.
sim, isto basta!
Bastou? Vocês se contentam com pouco, hein? (ou... vocês estão sempre reclamando, hein?) Eh eh eh... brincadeiras à parte, com o decorrer dos dias, haverá mais. Beijos e abraços, amigos! Até breve!
NA MINHA VITROLA: BOB DYLAN - Spirit on the Water.
quinta-feira, 31 de agosto de 2006
Os tempos de Dylan

Enquanto um novo conto não chega a esta página, fico por aqui, preso a um lançamento musical que julgo essencial para o ano de 2006, até então meio fraco de grandes novidades.
Trata-se de Modern Times, de Bob Dylan. O mestre retorna após Love and Theft, lançado no dia em que as torres gêmeas caíram, portanto, após quase cinco anos. Dylan desfila sua voz rouca entre passarelas feitas de rock, jazz, blues e um tanto de country com a maestria de quem influenciou algumas gerações, o que não é pouco mesmo.Em Modern Times, o cantor e
compositor nos lembra que nem sempre houve cidades, carros, asfalto, publicidade, poluição, fábricas, multidões engarrafadas em rotinas vazias de sentido, crises e neuroses coletivas._"Tempos Modernos" resume Dylan, 65,
que batizou seu 32º disco de estúdio com o mesmo título do clássico filme de
Charles Chaplin, lançado em 1936, cinco anos antes do próprio compositor nascer.
Dylan se equivale ao cineasta na tentativa de resumir seu século de criação a
partir de seu principal legado, a modernidade._Alexandre Matias, colaboração para a Folha de S. Paulo30 de agosto de 2006
CDsThe Freewheelin' Bob Dylan (63)Bringing It All Back Home (65)Highway 61 Revisited (65)Blonde on Blonde (66)Nashville Skyline (69)Blood on the Tracks (75)The Bootleg Series # 4: The "Royal Concert Hall" Concert (Live) (98)_DVDNo Direction Home - A biografia de Dylan, documentário de Martin Scorsese (2004)
Beijos e abraços! Até breve!
NA MINHA VITROLA: BOB DYLAN - Beyond the Horizon > Nettie Moore.
quarta-feira, 30 de agosto de 2006
domingo, 20 de agosto de 2006
Lorca - 70 anos depois

70 anos antes. Espanha. Um país em estado de regressão. Naquele 19 de agosto desapareceu a maior luz do país e cada cidadão espanhol teve de conviver com a escuridão.
Hoje. Brasil. Ainda é preciso falar de Federico García Lorca. Aqui está uma matéria muito interessante àqueles que o desconhecem. Acabo de ler, no Folha Online. Leiam vocês também.
Assassinato de García Lorca ainda perturba Espanha
RAFAEL ESTEFANIA, da BBC Brasil, em Granada, Espanha
O assassinato do poeta e autor dramático Federico García Lorca por nacionalistas no dia 19 de agosto permanece como uma das feridas abertas da Espanha.
Um homem à frente de seu tempo, ele viveu em uma Espanha que estava regredindo.
O mais gitano (cigano) dos poetas - rótulo que ele detestava - Lorca também era o mais internacional. Sua evocação do folclore da Espanha deve ser entendida como uma purificação da essência do país pelos olhos de um homem que não conhecia fronteiras.
"Canto para a Espanha e sinto este país no fundo do meu ser, mas, acima de tudo, sou um homem do mundo e irmão de todos."
García Lorca nasceu no dia 5 de junho de 1898 no vilarejo de Fuente Vaqueros, na província de Granada. Quando morreu, 38 anos depois, o legado de seu trabalho e sua personalidade já tinha garantido a Lorca um lugar no panteão dos imortais.
Hotel
Visitando Granada e áreas vizinhas ainda é possível ver alguns dos elementos que inspiraram o trabalho de Lorca: a luz refletida nas casas brancas de Albaicin, o ar limpo da Sierra, idosas vestidas de preto sentadas nas entradas das casas ou indo à missa nos domingos, o silencioso religioso da hora da siesta, o som áspero dos ciganos cantando flamenco em Sacromonte.
"Até hoje Granada é um vilarejo, todos se conhecem e, neste sentido, muito da Granada onde Federico viveu não mudou", disse Federico Jimenez, gerente do Hotel Cristina, a antiga casa do poeta Luis Rosales. Neste hotel García Lorca se refugiava e neste mesmo lugar ele foi seqüestrado por Falangistas que o mataram.
"Por esta porta eles o levaram e colocaram em um caminhão com outros suspeitos políticos. As pessoas que viram isto não querem falar sobre o assunto até hoje. Idosos preferem esquecer e não reabrir velhas feridas", afirma Jimenez.
O corpo de Lorca ainda não foi encontrado.
Objetos pessoais
A terra natal do poeta, Fuente Vaqueros, fica a menos de 40 minutos de carro de Granada.Atualmente a casa onde García Lorca nasceu é um pequeno museu onde objetos pessoais e partes da vida do poeta estão preservados. Um velho gramofone toca algumas das composições de Lorca.
O museu exibe o berço, fotografias de escola e o atestado de óbito assinado pelos pais do poeta.
"Eles não tiveram escolha. O corpo nunca foi encontrado, mas eles tiveram que assinar pois foi a única forma de oficializar a morte de Federico", afirma Paco, o curador do museu.
Em um aparelho de televisão no museu podemos ver Lorca nas únicas imagens gravadas do poeta. A imagem é em preto e branco e Lorca aparece sempre sorrindo, ajudando na colocação de cenários ou representando para a câmera, um homem cheio de energia.
Outro poeta e amigo de Lorca, Jorge Guillen, costumava dizer que quando Lorca estava por perto, o clima nunca era quente ou frio, era um clima "Federico". "Tamanho era o estado de intoxicação causado por sua presença, até fazia com que você se esquecesse da temperatura."
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Vanguarda
García Lorca estava à frente de seu tempo, era um viajante, homossexual, vanguardista.
Ele viveu em Nova York num tempo em que nenhum espanhol costumava viajar. Na cidade americana ele escreveu Poeta em Nova York. Lorca foi à Argentina e passou um tempo em Cuba.
"Católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista, monarquista" foi como o poeta se descreveu. García Lorca nunca pertenceu a uma corrente política definida, o que é uma das razões para muitos acreditarem que sua morte ocorreu devido a motivos pessoais.
"A inveja é um fator importante na morte de Lorca. Ele era invejado por seu talento, tinha dinheiro e sucesso. Quando os militares assumiram o poder, sua execução era apenas uma questão de tempo. Um liberal, homossexual de sucesso não poderia ser tolerado na Espanha do ditador Franco", afirma Ian Gibson, biógrafo de Lorca.
O poeta foi morto a poucos quilômetros de Fuentes Vaqueros, entre Viznar e Alfacar.
Um morador local, de 80 anos, se lembra daqueles tempos.
"Muitos caminhões chegavam aqui com prisioneiros para serem executados e enterrados nas proximidades daquele barranco. Um tiro na nuca e eles iam para a cova", afirmou.
Em um destes caminhões estava García Lorca, um professor e dois banderilleros, que participavam de touradas. Acredita-se que os quatro tenham sido baleados e jogados em uma vala comum.
Mistério
Francisco Galadi e Nieves Galindo, netos dos banderilleros, entraram com um recurso na Justiça da Espanha para conseguir permissão para exumar os corpos, numa tentativa de identificar seus avós, que estariam no Parque Federico García Lorca, próximos a uma oliveira.
A família de Lorca é contra a exumação.
"Ele está enterrado lá, estas foram circunstâncias terríveis. Hoje, para nós, este lugar é um cemitério onde ele descansa junto com centenas de outros que, como ele, foram assassinados", disse Laura Lorca, sobrinha do poeta e diretora da Associação García Lorca.
"Queremos que as circunstâncias de sua morte sejam respeitadas e este lugar seja protegido de especulação comercial e curiosidade mórbida."
Mas a especulação continua. Alguns afirmam que o corpo do poeta não está mais no parque, que a família exumou o corpo e o sepultou em Granada.
Setenta anos depois de sua morte, a voz de Lorca ainda está viva como na noite de 19 de agosto de 1936, quando balas tentaram silenciar o poeta.
Um pouco de Lorca pra vocês:
La Casada Infiel
A Lydia Cabrera y a su negrita
Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
Fue la noche de Santiago
y casi por compromiso.
Se apagaron los faroles
y se encendieron los grillos.
En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.
El almidón de su enagua
me sonaba en el oído,
como una pieza de seda
rasgada por diez cuchillos.
Sin luz de plata en sus copas
los árboles han crecido
y un horizonte de perros
ladra muy lejos del río.
Pasadas las zarzamoras,
los juncos y los espinos,
bajo su mata de pelo
hice un hoyo sobre el limo.
Yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
Ni nardos ni caracolas
tienen el cutis tan fino,
ni los cristales con luna
relumbran con ese brillo.
Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre,
la mitad llenos de frío.
Aquella noche corrí
el mejor de los caminos,
montado en potra de nácar
sin bridas y sin estribos.
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
Sucia de besos y arena
yo me la llevé del río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.
Me porté como quién soy.
Como un gitano legítimo.
La regalé un costurero
grande, de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.
De Romancero Gitano (1924-1927)
segunda-feira, 14 de agosto de 2006
Isso não é real

Praça da Paz, Parque do Ibirapuera, aproximadamente 21h30 da noite.
Estava ali, sentado na frente do Homem-Pássaro do cearense Mestre Nino, querendo apenas ver de longe a performance do Cordel do Fogo Encantado. Um evento desses que eu não sabia bem o que era*, mas havia todos aqueles bonecos do Nordeste, as barracas de artigos típicos e sabia que havia apresentações de teatro de marionetes. Cheguei lá com os amigos, mas naquele momento estava sozinho.
Ouvia ao longe uma polca que era a trilha de algum espetáculo de bonecos. Tudo isto, aliado à iluminação noturna do lugar, dava a impressão de um grande cenário surreal. Cheguei a pensar que era personagem de um filme de Fellini, de verdade (ok, vocês estão se cansando da brincadeira... eh eh eh!).
Mas eu e todo meu povo, estávamos lá pelo show do Cordel. E como ando um pouco sem fôlego para ficar no meio do grande público, preferi ficar ali atrás. Afinal, havia os telões, também. Não seria impossível ver e, mesmo ao longe, se via o palco. Foi assim que nos separamos. A maioria foi para o meio da massa. Outros procuravam os tais banheiros químicos, além da própria cerveja. Eu mesmo fui o da segunda turma.
Então liguei. Apenas para combinar o ponto de encontro. "Ei, Júnior, estou ao lado do Homem-Pássaro. A gente se encontra aqui depois do show." Ele estava perto e apareceu por lá. O Mafra e a Ale também apareceram e decidiram fixar-se ali também. Conversávamos enquanto não havia o show.
Pois bem, a banda adentrou o palco. O clima surreal se intensificou mais, como num "Glauber meets Fellini". Havia cerveja - adquirida com dificuldade, diga-se de passagem -, chocolates e as conversas com os amigos. O todo era oniricamente perfeito.
Então me desconectei do todo, porque o todo já era a matéria. Comecei a escrever em meio às invocações de chuvas que não viriam. Sim, o serviço de previsão de tempo estava correto. Não haveria chuvas.
Em algum momento, as latinhas de cerveja começam a fazer efeito e eu desejei um banheiro químico. Mas ao contrário do que se pode imaginar: desejei um banheiro químico que, quando a porta fosse aberta, se revelasse uma geladeira repleta de mais e mais latinhas de cerveja.
Viagem demais, né? Ok, vou deixá-los satisfeitos. Guardei a caderneta e a caneta. Ainda havia cerveja na mochila, porém quase quente. Mafra e Ale tiravam fotos. Juntei-me a eles, curti a conversa, o show. No outro dia, acordaria e descobriria que tudo aquilo não era real?
Não. Era real. Cordel foi muito bom e, mais que isso, estar lá foi melhor ainda.
Beijos e abraços, amigos!
Fonte da Foto: http://www.entrecantos.com
NA MINHA VITROLA: VIVE LA FETE - Touche pas.
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* SESI Bonecos do Brasil
Então me recordo...


Amarcord - referência à tradução fonética das palavras "mi recordo", usada na região de Emilia-Romagna, na Itália, onde o diretor nasceu. Lançado em 1973, sobre Amarcord, Fellini nega que se trate de um filme autobiográfico, mas admite que há episódios que se passam ali que se parecem com alguns de sua infância.
A história, que não contarei exatemente de acordo com a cronologia e, grosso modo, é esta:
O vento traz os flocos de neve e este é um sinal de que o inverno se vai, para dar lugar à primavera. A cidade está eufórica, festeja. A queima de um boneco de uma bruxa velha é um rito de passagem da estação.
Desfilam os personagens, como a bela e coquete Gradisca, o acordeonista cego, o resmungão Aurélio e sua família, a louca Volpina, o advogado que nos narra a história e que tem um "admirador" que está sempre a avacalhá-lo, entre outros.
É delicioso contemplar as travessuras juvenis e os excêntricos professores. Ainda que tudo se passe em tempos politicamente difíceis, onde o fascismo dá o tom. Na ocasião de uma visita de Mussolini, Aurélio - que é contra o regime - é suspeito de ser o responsável pela ousada execução da Internacional e paga o pato.
A religiosidade está presente. Durante a confissão, o padre diz a Titta, o garoto que depois iria se encantar com a fartura dos seios da dona da tabacaria, que "os anjos choram quando você se masturba".
Entre as recordações mágicas de um mundo que não existe mais, o lunático Teo carrega pedras no bolso, e no dia em que seus familiares o levam para um passeio, sobe em uma árvore e clama por uma mulher. Eis a imagem da desolação. Revolta-se contra a família, que quer que ele desça da árvore e atira pedras contra todos. Após 5 horas, a equipe do sanatório onde ele está internado chega e uma freira anã consegue fazê-lo descer.
O maltrapilho Biscein se dá bem com as 30 concubinas de um emir gorducho que se hospeda no Grand Hotel da cidade. No cinema, Gradisca sonha com Gary Cooper. Titta sonha com Gradisca (aliás, todos sonham com ela...) e depois com Lucia, a da tabacaria. Seu amigo Ciccio sonha com Aldina, que sonha com outro garoto...
Mesmo os dias de nevoeiro têm sua beleza nostálgica... e uma corrida tem lugar. E mais festa!
Mas nem sempre... Miranda, que é esposa de Aurélio e mãe de Titta, fica doente durante o período de nevasca. Dá conselhos ao filhos, sabe que não vai viver muito tempo. E, de fato... no dia de seu funeral, já não neva.
Gradisca enfim encontra num soldado seu Gary Cooper. Casa-se e vai viver com ele em outra cidade. Tem lugar uma festa de despedida num cenário bastante bucólico. Chove. Sol e chuva, casamento de viúva. O acordeonista cego toca o tema do filme. Recomeça a neve. A molecada corre pela paisagem campestre...
Em contraponto com amargura do personagem Marcelo Rubini, em A Doce Vida, Amarcord é a celebração da vida simples, ingênua mesmo, dos habitantes daquele lugar, cujo nome não é revelado. Não há explosões hollywoodianas, que ninguém precisa disto ali. Quem dera a existência fosse um sonho, quem dera eu tivesse nascido num filme de Fellini. Não que viver na maior metrópole sul-americana seja absolutamente ruim. Há momentos ótimos - inclusive contarei, na próxima postagem, um episódio interessante e quase onírico que se deu no último sábado. É que o universo de Amarcord leva a isto... a desejar estes dias jamais vivemos. Ou podemos vivê-los, de alguma forma?
Seja como for, beijos e abraços pra vocês!
Fonte das fotos: http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/amarcord/amarcord.htm
NO MEU HD CRANIANO: A música-tema de Amarcord, composta por Nino Rota.
