Um dia de céu limpo, uma dose de conhaque, o porco engravatado que rumina dinheiro alheio, as noites solitárias, as crianças fazendo algazarra, amores possíveis e impossíveis. Tudo o que há sob o sol (e além do sol) é a matéria da poesia.
Este blog é um livro inconcluso com páginas abertas para que você encontre textos escritos com verdade, sentimento e, principalmente, com ALMA.
Uma viagem que nunca termina. Por Alessandro de Paula.
Contatos em palavratomica@gmail.com
Uma fragata que afunda, um dia com céu mais limpo, uma dose de conhaque, o porco gordo que vomita dinheiro alheio, mil noites de solidão e TV ligada.
Tudo isso e muito mais é tema de poesias. Mas nada foi tão falado em poesia, como o amor. Mesmo que seja um amor torto, de meleca no nariz e unhas encravadas.
Pois é. Hoje, pessoas, entrego-lhes um poema de amor. Um entre tantos. Um.
Alva Iracema
Houve um poeta na noite, andando borracho pelas calçadas, ziguezagueante e não com muito destino, apenas nevoeiro demasiado, tropeçando em pedras nas vias. Nada havia à sua frente que o pudesse inspirar.
Vazia, então, era a poesia.
Com suas folhas em branco a se perder a conta.
Todas as garrafas por ele esvaziadas registravam sua história de nadas e nadas. Miserável, ele observava o nada que era existir.
O que havia de dormido em si era algo calado que ele esperava que talvez ainda emergisse. Mas não, já não esperava com todo ardor.
Até que num dia desses, um desses dias de pouca ou nenhuma esperança –, ou nenhuma ou pouca dor – uma voz o chamou. E ele a ouviu.
“Diabos, era uma voz sedutora.” – disse ele, rendendo-se ao magnetismo. Desfez-se do estado de torpor.
Alguma coisa ali se acendera.
Era Vênus quem portava aquele litro e vinha em sua direção. Um trago de paixão insana... e o poeta enxergava, enfim, sua pequena.
Tempestade e ímpeto. Ele irá ao seu encontro.
Atirou rua abaixo suas defesas e gritou que ainda havia amor. Passou a haver. Feliz fatualidade da vida.
Shelley e os outros caras estavam, em parte, certos.
De todos os poetas largados do mundo – e trata-se de um numeroso grupo –, agora é o mais feliz e, também, às vezes, atormentado quando a visão lhe falta. Sobretudo quando lhe falta o toque.
Jamais desapareça, ser tão venerado. Nunca mais torne o poeta a sentir desesperança. Brota a flor cerca o esterco dos animais. Ainda assim, a mais sublime figura de amor que já não esperava.
Agora existe.
Guarda em teu seio a mensagem. Com ímpeto e sob a tempestade,o poeta vencerá concreto e distância, atravessará rios e montanhas.
Ele irá ao seu encontro, alva Iracema.
Juntos, então, serão felizes. Haverá sorrisos de parte a parte. Olhosnosolhos, carnenacarne. Nesta terra.
Todo esse noticiário sobre a morte da ex-amante do agora provavelmente ex-goleiro do Flamengo me fez pensar em coisas. Diversas delas.
Uma de tais coisas foi tentar ver o caso através dos olhos de um investigador policial, um tipo que tem de ser duro no meio em que vive. E que provavelmente não é o tipo que escapa de ter certos desvios psicológicos. Quis tratar isso não com a rudeza do meio, mas com uma tentativa de aprofundamento em sua personalidade. Não sei se consegui, até porque se trata de uma poesia, mas o resultado é este:
Particularidades de um Homem Forte
Boa noite, cara família que me pasma com sua tranquilidade em seu confortável jogo de sofás de cores neutras.
Sento-me num deles, mas não posso desfrutá-lo como desejo, pois mesmo quando posso não estou sozinho.
O pequeno está no quarto e me chama para passarmos algum tempo. O tempo que uso fingindo afastar fantasmas.
Ouço a voz daquela mulher que, tola, ainda anseia algum calor de mim sem perceber que tudo ao redor é gelo.
Mal durmo nesta noite e assim é em todas as outras noites frias desde que escolhi ser quem tenho sido.
Nas manhãs desoladas já não tolero as vozes e quase me acidento ao volante no caminho para o martírio.
Lá estão os monstros todos, na minha mesa e ao redor só se fala disso. Então saímos, eu e meus companheiros.
Outra missão a cumprir. Mais uma vez, outra busca sem esperanças. Apenas esta vítima e o corpo há dias inerte.
Não rezo pela humanidade. A crueldade que vejo não mais me atordoa e faço-me forte perante os que me buscam.
Quando enfim estou só, o choro de cada ser que parte – e dos que ficam – é minha companhia quando volto à casa.
Até amanhã, trágica rotina. Invejo a tranquilidade de minha família e não posso partilhar o que vai adentro.
Ainda que, quando acaba, não queira mais ser o que tenho sido: o investigador.
Já está online, disponível pra download gratuito, a sexta edição da Revista Cultural Novitas. Matérias quentíssimas com os multimídias Xico Sá e Abilio Manoel, o artista plástico Silvio Alvarez, entre outras.
Também estão quentes as seções de crítica literária, contos, crônicas e de poesias. Está última, onde eu compareço com Não Ofereça Flores a Fantasmas (está na pág. 11).
Visitem e baixem a nova edição, assim como as anteriores, aqui.
É, a Playboy portuguesa reverencia José Saramago. E traz Jesus e uma desnuda Maria Madalena na capa. Claro que haverá ou já está havendo celeuma por parte dos setores mais tradicionais da sociedade lusa.
Por isso futebol é fascinante. Lugar comum, eu sei.
Mas vi uma Europa decadente, que foi mostrada noutro post aqui. O que só fui ver com o passar dos dias é outra Europa: a triunfante.
Claro, Uruguai ainda pode resgatar o orgulho sul-americano, mas ainda assim, é muito improvável, visto que terão diversos desfalques quando entrarem em campo contra nossos mais recentes algozes, os holandeses. Do outro lado, uma Alemanha de futebol incontestável e uma Espanha que poderia ter rendido mais, mas que é capaz de levar o caneco, sim.
Pois que seja! Estamos muito perto de ver, pela primeira vez, uma seleção europeia ganhar uma Copa fora de seu continente. Coisa que era privilégio apenas de brasileiros, que ganharam em 1958 na Suécia e em 2002, na Coreia do Sul e no Japão.
Que a Copa da África do Sul está sendo estranha, está. E feia, com menos gols, tudo isso. Poucas seleções escapam da decepção. Curiosamente, as que estão se dando bem são as latino-americanas, ao menos por enquanto. E a Holanda, que neste ponto, é a primeira e única classificada à próxima fase.
Acredito no fator Jabulani. Uma bola tão diferente, tão leve, que os praticantes do desporto criado pelos ingleses e aprimorado pelos brasileiros estão tendo de se readaptar. É quase um novo esporte. Mas alguns não se adaptam tão rápido.
Também creio no fator globalização + internet. Hoje é muito fácil pra seleções menos tradicionais estudarem os estilos, as escolas futebolísticas. Aliando essa facilidade de estudo a uma boa dose de força de vontade, é possível que haja surpresas. E estão acontecendo.
Pior para a França, que reedita o vexame vivido em 2002, na Copa da Coreia do Sul/Japão. Ou seja, corre o risco de sair da competição sem marcar ao menos um gol, depois de um empate pífio com o Uruguai e de se render ao México, que ganhou com o placar de 2 x 0.
Mas as seleções do Velho Continente têm de por a barba de molho mesmo. Pois a Inglaterra conseguiu apenas empates contra EUA e Argélia, com direito a falha do goleiro Green, a primeira vítima da era Jabulani.
E a Itália vai no mesmo caminho, apenas empatando com Paraguai e com Nova Zelândia. Apesar de que a Itália... bom, quem acompanha futebol com frequência sabe que é quase uma tradição a Itália começar mal nas Copas. Pois é, algumas vezes, apesar disso, os italianos terminam campeões.
Mesmo a Alemanha, que começou tão bem, ganhando de 4 x 0 da Austrália, na rodada seguinte sofreu seu revés ao perder de 1 x 0 pra Sérvia. É um grupo jovem e promissor, mas a inconstância da juventude pode ter um preço alto demais aos alemães.
Já a Espanha vinha sendo considerada por especialistas como a grande favorita ao título. Começou perdendo a cabeça e o jogo para a Suíça. 1 x 0.
Mas, como veem, se o fracasso (por enquanto, momentâneo) de seleções europeias (e também, podemos acrescentar, das africanas, as "donas da casa") gera uma situação dramática pra quem costuma torcer pra essas grandes potências. Seleções europeias de menor expressão e, principalmente, as latino-americanas tem sido favorecidas por tal quadro. Não apenas Brasil e Argentina, sempre credenciados ao título, mas desta vez, Chile, Paraguai, Uruguai e México podem sonhar com a chance ir um pouco mais longe neste torneio. E com razão.
Tenho grandes expectativas de uma semifinal latino-americana, ainda que, por mais que tenham soltado as zebras na África do Sul, seja um feito dificílimo de ser alcançado.
Vejamos a continuidade da era Jabulani. E das vuvuzelas.
José de Sousa Saramago, 16.11.1922 - 18.06.2010. Foto de 1996 por Sebastião Salgado, em Lanzarote, Ilhas Canárias, onde o autor viveu até seus últimos dias.
"Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."
José Saramago em As Intermitências da Morte, 2005.
Vamos lá, que é hora de fazer este espaço ser alguma coisa mais uma vez.
Então vou começar contando como vai a vida.
Neste ano, tive propostas de trabalho bem cedo. Foi animador e também recompensador. Apenas um mês e uma semana depois do último freela de 2009. E os quatro meses que passei na editora grande de livros didáticos valeram a pena. Dez dias de folga e lá estava eu assumindo outro compromisso, outro freela, noutra editora, essa um pouco menor, mas também com nome no mercado.
Claro que é muito bom ter desafios e experiências novas pro currículo. Mas é custoso, também, quando se mora num bairro relativamente afastado de tudo e quando se vive numa cidade tão insana, com uma população enorme e igualmente louca como São Paulo. Por isso, tive a certeza de que, morando próximo de onde as coisas acontecem, tudo seria mais fácil. Mas não é fácil dar este passo sem haver uma certa estabilidade.
Verdade que trabalhei e sigo em frente, mas tal estabilidade ainda não existe. Não se pode planejar a vida a contento quando o que você tem são freelas, por mais generosos que possam ser pra você. Uma hora isso passa, simplesmente.
Enquanto estava pelas vias de metrô, ia pensando no sentido de tudo isso (e às vezes essas reflexões - e as viagens - eram/são interrompidas por algum maluco que se atira[ra] na linha do trem).
Não, não reclamo de trabalho. Esse Alessandro que reclamava acabou, até que deem motivo. Não me deram tais motivos, felizmente. Mas pensava no porque de uma pessoa se locomover entre lugares distantes pra ter dinheiro. A resposta era prática: as contas em dia, a cirurgia da mãe, pequenos confortos e alegrias particulares. E, diabos, esta história de locomoções é a coisa mais comum que há.
Mas sacrifiquei minha criatividade e este espaço sofreu os efeitos disso. Não porque a rotina corrida exigisse isso. Não era tanto o caso. Era mais a velha questão que me afligia desde o ano passado, sobre a validade de continuar produzindo poesia num contexto em que tanta gente pouco lê.
Mentira! Puro egoísmo. Se há esse contexto, há um outro que me é muito particular. Porque no decorrer da vida, fui construindo meu universo. E posso dizer que escolho a dedo quem pode entrar nele. Afinal, posso escolher não ser afetado pelo contexto global.
Foi assim que me vi cercado de pessoas interessantes, que tem sim interesse em leituras. São pessoas que "leem o mundo" tanto quanto eu. Umas um pouco menos, outras um pouco mais. E prova disso é que este blog não deixou de ter certa visitação durante minhas longas "férias". Não foram raras as vezes que me perguntavam, em encontros combinados ou fortuitos, se eu estava escrevendo algo.
Bom, fiz pouco disso e não publiquei aqui. É provável que não publique aqui muito do que escrevo, nos próximos tempos, porque volto a ter projetos. E alguns desses projetos exigem ineditismo. Mas este espaço não estará mais abandonado.
Pois se perderá algo sobre minha própria produção, ganhará em "projeção do externo". Sem perder a alma. Então não se preocupem, gente minha.
Sempre voltarei. De uma forma ou de outra. E, a partir de agora, com mais frequência.
Já não é mais hora de esperar ou refletir. É hora de fazer acontecer.
Beijos e abraços. E não deixem de torcer por mim.
PS: A foto que abre este post é minha, com alterações providenciais (ou um pouco over - não deixem de me dizer, se for o caso) feitas no Picasa, do Google.
Esta poesia é um pouco um mea culpa por meu desaparecimento.
Poderia dizer que tirei férias do blog. Não é verdade. Embora esteja vivendo ainda "com alma", não houve possibilidades de trazer pra cá algo que eu tivesse feito "com alma". E não pretendo mentir a vocês, porque são espertos, entendem tudo. Ou, ao menos, é o que suponho, acreditando também que alguém ainda visita este canto esquecido da net.
Às vezes - muitas vezes, aliás - um cara, um poeta, tem mil possibilidades de comunicar-se, de expressar o que sente, o que há. Mas o mundo tem um ritmo avassalador - vocês sabem bem - e esse cara pode simplesmente se acomodar, deixar-se levar sem nada produzir. Mesmo quando ele é um poeta. São milhares, milhões de sensações que vêm e que vão embora, se é permitido que elas não aflorem numa folha. Ou num monitor.
Mas aqui estou. De volta ao lar. De volta ao sentido de existir. Porque posso assumir tantos e tantos papéis. Mas isto aqui é o que sou. Acompanhem.
Sou poeta. Sou poeta até quando não estou poeta. Quando a velocidade do mundo tira o fôlego. Quando percebo o detalhe na esquina horrenda. Em qualquer metrópole. Em qualquer trem suburbano. O brilho dos olhos da menina. A minha, dos olhos, é a poesia. Mesmo a não escrita, a jamais publicada. A que não se lê nem se vê. Vive-se. Sente-se e leia. Ou sente-se apenas.
Poesia não é bula de remédio. Nem número de telefone. Não se decora, guarda-se na alma. Na memória, mesmo traduzível só em sensação.
Ser poeta é não estar morto. Embora se deva homenagear os que vieram antes. De Cesário, o Verde, a Drummond. De Leminski a Valèry. La mer, la mer, toujours recommencée ou Florbela que brota sempre, sempre.
O poeta pode até não rimar, mas não pode morrer. Pode ser ridicularizado, deixado pra trás. Considerado anacrônico. Ele precisa da dor, do desprezo. Assim como do deleite. Dos pequenos belos gestos de simpatia. E há tudo de sobra. Como não ser poeta, não recolher todas as ações e reações? Como não carregar tudo pela vida adentro? Simplesmente existir como um fogo-fátuo? Ah, a não existência...
Não, um poeta é de carne e osso. E sentimento. E memória. Um catalogador de pessoas. De lugares. Do que não é comumente catalogável.
Ainda que não se escreva um verso por dia. As ondas afastam-se, apenas para retornarem. Fracamente, fortemente. Verdadeiramente. Quem nasce poeta, assim permanece. Assim existo. Sou poeta.
Pretendo retornar ainda neste fim de semana. Há mais poesia. E há algumas pequenas listas que, publicadas tradicionalmente ao fim/início de um ano, estou devendo.
Poesia filha de várias histórias, velhas ou novas histórias em fragmentos. Cliquem na imagem azul com texto para lerem. Saboreiem-na sem moderação. Bom apetite, filhos!
"Fragmento" de Le Baiser (1881-1898), obra de Auguste Rodin.
Fragmento-Momento
Volto com mais daqui a pouco. Beijos e abraços, pessoal!
Um delírio, apenas um delírio de apocalipse onde comparecem Serge Gainsbourg, Hieronymus Bosch e Julio Cortázar e sua autoestrada do sul (leiam Todos os Fogos o Fogo, ótimo livro de contos do autor argentino nascido na Bélgica de... Bosch). Apenas um delírio que se converte em algo que vocês encontram aqui, neste instante.
Selo somali com detalhes de O Inferno, parte do tríptico O Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch.
Ao Longe, as Chamas
Quando tudo estiver, por fim, em seu fim, quero estar numa planície gramada, longe do jardim de concreto, da cidade que devora as carnes.
As pessoas se espremerão nos trens, em desespero, quando o céu ganhar uma cor inédita.
Estarei ao longe. Já estarei quando a autoestrada do sul estiver congestionada. Tocará Gainsbourg na minha rádio, haveria amigos, poesia e algo mais para beber. Em fartura.
Não, não será como quero. O último espetáculo não será assim. É, provavelmente não será, mas permitam-me imaginar.
Imagino, com permissão ou não.
Na minha mochila velha e suja carregarei tudo que tiver havido: prazeres, alegrias e, porque um cara não pode prescindir disto, também levarei os fracassos.
A memória. Brindemos à memória.
Rumo ao nada definitivo. Num instante entre deslumbramento e deslumbramento, questionarei a razão de tudo isto, desta existência. Por que estar no mundo quando se sabe que tudo desaparecerá?
Não sei, não compreendo. Sei que estou, por ora. E terei aproveitado jatos de esporádicas alucinações de felicidade entre os enormes blocos de rotinas suportáveis e outras menos.
Que seja incomum o fim, vislumbrando as sufocantes chamas que consomem os arranha-céus. Que os amigos bailem, que o último sorriso venha fácil antes de desaparecermos na névoa do todo que se conclui.
Produto de um sonho ruim, esta poesia. Produto de uma realidade cada vez menos real, esta poesia. Um pequeno pedaço de pesadelo que agora ofereço a vocês.
A Ordem Antinatural das Coisas
hoje tive um sonho e era algo tão ruim... você estava tão sem norte e, ferida, procurava abrigo
eu, que tinha a morte na alma, não pude oferecer
o que há com o mundo? o que há com todos nós?
mesmo o poeta sem muletas fica perplexo e não para de perguntar-se
todos nós sabemos e calamos: há uma brutalidade sem rosto no mundo
antes poderíamos falar de a ou b ou x mas as letras já fazem falta
o abacaxi não tem gosto
ou todas elas estão aí em excesso mas não temos tempo, não temos tempo
construir uma verdade a partir da experiência que se vive, seguir um rumo escolhido parece luxo e há a tentação do apoio fácil
segue-se, cega-se
há tanta gente oferecendo no caminho...
mas você sabe, os mesmos que lhe darão carinho irão jogar pedras se algo sair errado
não param para se perguntar mas perguntar o quê? já não sei o que perguntar...
hoje é preciso haver medo ou enlouquecer
de qualquer modo estar no mundo é um ato de perversão porque você sabe, terá de ceder a algo ceder a algo...
e escrevem por aí sem pontuação ou com pontuação deficiente
mas qual é mesmo o valor da gramática, da sintaxe, do estilo?
há mais dor no mundo do que se pode suportar mas agora mesmo há uma mão estendida
pronta a sufocar no segundo seguinte
- sei, repetição da ideia, ainda que as palavras mudem -
mesmo quem sabe já não grita... e quem grita tem amarras
como se sai de tal labirinto?
- não, esta poesia não tem fim, embora formalmente este seja um.
Conto com que tenham saboreado. Sem moderação. Beijos e abraços!
Esta poesia surgiu após algumas leituras que vinham ao encontro de algumas impressões minhas que já tinha, inclusive, falado a algumas pessoas. Fragmentos se uniram para formar uma breve visão ainda fragmentada, esta constatação desamparada perante o mundo em que vivemos - talvez um pouco inocente, mas a qual atribuo algum valor. Leiam e concluam por si.
O Motor das Mortes da Alma
O mundo acabou. E esqueceram de avisar-nos.
Já nem me importo.
Não. Não é que não me importe. É que as vezes penso que ninguém percebe. Que não se importam.
Às vezes estou certo.
E cedo.
Ok, não é uma poesia que "resolva" algo. Não "resolve" coisa alguma. Mas quem diz que a poesia tem que "resolver" qualquer questão? Gosto de seu caráter de "inutilidade" - e tenho pensado muito nesta propriedade do texto poético. Que sejam tão belos e honestos e pueris os versos quanto "inúteis". Beijos e abraços, amigos!
NA MINHA VITROLA: RONI SIZE - Watching Windows (Ed Rush & Optical remix).
Antes de ser uma afirmação conformista, é uma constatação. Pois o mundo ficaria muito sem graça se todos aderissem àquela que chamam barriga-tanquinho.
Digo isto porque tive uma barriga grande, maior que a atual. Então fechei a boca, perdi peso. Mas parei.
De perder peso. Sem tampouco voltar a ganhar. No entanto, a barriga permanece. Maior que em alguns poucos momentos, menor que na maioria desse tempo em que tenho preenchido lugar neste mundo.
E, por falar em mundo, faltariam academias a ele. Ou haveria mais academias que igrejas. Não sei se é mais interessante o culto ao corpo ou às divindades. Mas, tanto quanto há igrejas, há um tanto mais de bares no mundo.
Algumas pessoas encontram deus nos bares. E uma barriga personaliza. Isso não é conformista. É ir contra a onda.
Parei de estar às turras com a barriga.
É isso, pessoal, mas não é só isso. Talvez eu acrescente novas ideias. Não é uma edição definitiva, assim como nada aqui no blog o é. Bom, agora vou correr, de qualquer forma. Beijos e abraços!
NA MINHA VITROLA: ANDRES CALAMARO - Sexy y Barrigón.
Ah, não me dei conta. Digo, até que sim, mas foi quando as coisas passam pela cabeça, num momento em que não se poderia fazer. E, quando se pode, se esquece.
Pois é. Foi em outubro, no começo do terceiro terço do mês agora acabado, que este espaço completou cinco anos. Mas isso é mesmo relevante? Que o espaço exista, tão somente. E sou mesmo ruim de datas, se não me avisam.
Celebremos melhor agora, que a poesia veio espontânea.
O Tempo Mirrado
Porque andamos todos com pressa e, na pressa, perdemos o pique.
Já não se usa poesia. Já não se vê além do concreto. E é por isso que gostei de Brasília, havia concreto, mas havia mais céu e as cigarras acolhiam.
Eis a poesia da pocilga, a do Pasolini, inclusive. Consumo, consumo-me e deixo consumirem. Antes de sumir, antes de dormir.
Insisto em não morrer. Entre latas vazias de cerveja que já devia ter jogado fora e contas que ainda não pude pagar.
Ou não quis.
Mirror, mirror... o que fez com o tempo?
Na parede, um quadro com foto de criança que os amigos insistem em transformar em motivo de esculhambação.
Eles têm razão. Mas também não.
Porque há saudade da inocência.
Mas se quer uma vida selvagem, venha para a cidade.
Conheça a mulher-fragmento. Na verdade, conheço algumas da espécie. E não há perigo de extinção. Feras que não devoram.
Como estas linhas, a poesia-fragmento.
Gosto do meu ritmo, do que faço. Ou da falta de. Mas é que me rendo. Aceito. Assino o contrato.
Nos deram espelhos... e já vimos um mundo saudável, porque a doença faz parte de nós.
Mirror, mirror... o que é feito de nós?
Hoje é isso. Amanhã, que não significa o exato dia, tem mais. Beijos e abraços!