domingo, 20 de agosto de 2006

Lorca - 70 anos depois


70 anos antes. Espanha. Um país em estado de regressão. Naquele 19 de agosto desapareceu a maior luz do país e cada cidadão espanhol teve de conviver com a escuridão.

Hoje. Brasil. Ainda é preciso falar de Federico García Lorca. Aqui está uma matéria muito interessante àqueles que o desconhecem. Acabo de ler, no Folha Online. Leiam vocês também.

Assassinato de García Lorca ainda perturba Espanha

RAFAEL ESTEFANIA, da BBC Brasil, em Granada, Espanha

O assassinato do poeta e autor dramático Federico García Lorca por nacionalistas no dia 19 de agosto permanece como uma das feridas abertas da Espanha.

Um homem à frente de seu tempo, ele viveu em uma Espanha que estava regredindo.

O mais gitano (cigano) dos poetas - rótulo que ele detestava - Lorca também era o mais internacional. Sua evocação do folclore da Espanha deve ser entendida como uma purificação da essência do país pelos olhos de um homem que não conhecia fronteiras.

"Canto para a Espanha e sinto este país no fundo do meu ser, mas, acima de tudo, sou um homem do mundo e irmão de todos."

García Lorca nasceu no dia 5 de junho de 1898 no vilarejo de Fuente Vaqueros, na província de Granada. Quando morreu, 38 anos depois, o legado de seu trabalho e sua personalidade já tinha garantido a Lorca um lugar no panteão dos imortais.

Hotel

Visitando Granada e áreas vizinhas ainda é possível ver alguns dos elementos que inspiraram o trabalho de Lorca: a luz refletida nas casas brancas de Albaicin, o ar limpo da Sierra, idosas vestidas de preto sentadas nas entradas das casas ou indo à missa nos domingos, o silencioso religioso da hora da siesta, o som áspero dos ciganos cantando flamenco em Sacromonte.

"Até hoje Granada é um vilarejo, todos se conhecem e, neste sentido, muito da Granada onde Federico viveu não mudou", disse Federico Jimenez, gerente do Hotel Cristina, a antiga casa do poeta Luis Rosales. Neste hotel García Lorca se refugiava e neste mesmo lugar ele foi seqüestrado por Falangistas que o mataram.

"Por esta porta eles o levaram e colocaram em um caminhão com outros suspeitos políticos. As pessoas que viram isto não querem falar sobre o assunto até hoje. Idosos preferem esquecer e não reabrir velhas feridas", afirma Jimenez.

O corpo de Lorca ainda não foi encontrado.

Objetos pessoais

A terra natal do poeta, Fuente Vaqueros, fica a menos de 40 minutos de carro de Granada.Atualmente a casa onde García Lorca nasceu é um pequeno museu onde objetos pessoais e partes da vida do poeta estão preservados. Um velho gramofone toca algumas das composições de Lorca.

O museu exibe o berço, fotografias de escola e o atestado de óbito assinado pelos pais do poeta.

"Eles não tiveram escolha. O corpo nunca foi encontrado, mas eles tiveram que assinar pois foi a única forma de oficializar a morte de Federico", afirma Paco, o curador do museu.

Em um aparelho de televisão no museu podemos ver Lorca nas únicas imagens gravadas do poeta. A imagem é em preto e branco e Lorca aparece sempre sorrindo, ajudando na colocação de cenários ou representando para a câmera, um homem cheio de energia.

Outro poeta e amigo de Lorca, Jorge Guillen, costumava dizer que quando Lorca estava por perto, o clima nunca era quente ou frio, era um clima "Federico". "Tamanho era o estado de intoxicação causado por sua presença, até fazia com que você se esquecesse da temperatura."
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Vanguarda

García Lorca estava à frente de seu tempo, era um viajante, homossexual, vanguardista.

Ele viveu em Nova York num tempo em que nenhum espanhol costumava viajar. Na cidade americana ele escreveu Poeta em Nova York. Lorca foi à Argentina e passou um tempo em Cuba.

"Católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista, monarquista" foi como o poeta se descreveu. García Lorca nunca pertenceu a uma corrente política definida, o que é uma das razões para muitos acreditarem que sua morte ocorreu devido a motivos pessoais.

"A inveja é um fator importante na morte de Lorca. Ele era invejado por seu talento, tinha dinheiro e sucesso. Quando os militares assumiram o poder, sua execução era apenas uma questão de tempo. Um liberal, homossexual de sucesso não poderia ser tolerado na Espanha do ditador Franco", afirma Ian Gibson, biógrafo de Lorca.

O poeta foi morto a poucos quilômetros de Fuentes Vaqueros, entre Viznar e Alfacar.

Um morador local, de 80 anos, se lembra daqueles tempos.

"Muitos caminhões chegavam aqui com prisioneiros para serem executados e enterrados nas proximidades daquele barranco. Um tiro na nuca e eles iam para a cova", afirmou.

Em um destes caminhões estava García Lorca, um professor e dois banderilleros, que participavam de touradas. Acredita-se que os quatro tenham sido baleados e jogados em uma vala comum.

Mistério

Francisco Galadi e Nieves Galindo, netos dos banderilleros, entraram com um recurso na Justiça da Espanha para conseguir permissão para exumar os corpos, numa tentativa de identificar seus avós, que estariam no Parque Federico García Lorca, próximos a uma oliveira.

A família de Lorca é contra a exumação.

"Ele está enterrado lá, estas foram circunstâncias terríveis. Hoje, para nós, este lugar é um cemitério onde ele descansa junto com centenas de outros que, como ele, foram assassinados", disse Laura Lorca, sobrinha do poeta e diretora da Associação García Lorca.

"Queremos que as circunstâncias de sua morte sejam respeitadas e este lugar seja protegido de especulação comercial e curiosidade mórbida."

Mas a especulação continua. Alguns afirmam que o corpo do poeta não está mais no parque, que a família exumou o corpo e o sepultou em Granada.

Setenta anos depois de sua morte, a voz de Lorca ainda está viva como na noite de 19 de agosto de 1936, quando balas tentaram silenciar o poeta.


Um pouco de Lorca pra vocês:

La Casada Infiel

A Lydia Cabrera y a su negrita


Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.

Fue la noche de Santiago
y casi por compromiso.

Se apagaron los faroles
y se encendieron los grillos.

En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.

El almidón de su enagua
me sonaba en el oído,
como una pieza de seda
rasgada por diez cuchillos.

Sin luz de plata en sus copas
los árboles han crecido
y un horizonte de perros
ladra muy lejos del río.

Pasadas las zarzamoras,
los juncos y los espinos,
bajo su mata de pelo
hice un hoyo sobre el limo.

Yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.

Ni nardos ni caracolas
tienen el cutis tan fino,
ni los cristales con luna
relumbran con ese brillo.
Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre,
la mitad llenos de frío.

Aquella noche corrí
el mejor de los caminos,
montado en potra de nácar
sin bridas y sin estribos.

No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.

Sucia de besos y arena
yo me la llevé del río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.

Me porté como quién soy.
Como un gitano legítimo.
La regalé un costurero
grande, de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

De Romancero Gitano (1924-1927)


Ruina
_
A Regino Sainz de la Maza
_
Sin encontrarse.
Viajero por su propio torso blanco.
Así iba el aire.
_
Pronto se vio que la luna
era una calavera de caballo
y el aire una manzana oscura.
_
Detrás de la ventana,
con látigos y luces, se sentía
la lucha de la arena con el agua.
_
Yo vi llegar las hierbas
y les eché un cordero que balaba
bajo sus dientecillos y lancetas.
_
Volaba dentro de una gota
la cáscara de pluma y celuloide
de la primer paloma.
_
Las nubes, en manada,
se quedaron dormidas contemplando
el duelo de las rocas con el alba.
_
Vienen las hierbas, hijo;
ya suenan sus espadas de saliva
por el cielo vacío.
_
Mi mano, amor. ¡Las hierbas!
Por los cristales rotos de la casa
la sangre desató sus cabelleras.
_
Tú solo y yo quedamos;
prepara tu esqueleto para el aire.
Yo solo y tú quedamos.
_
Prepara tu esqueleto;
hay que buscar de prisa, amor, de prisa,
nuestro perfil sin sueño.
_
De Poeta en Nueva York, VI. Introducción a la Muerte (1929-1930)
_
Tarde
_
¿Estaba mi Lucía con los pies en el arroyo?
_
Tres álamos inmensos
y una estrella.
_
El silencio mordido
por las ranas, semeja
una gasa pintada
con lunaritos verdes.
_
En el río,
un árbol seco,
ha florecido en círculos
concéntricos.
_
Y he soñado sobre las aguas
a la morenita de Granada.
_
De Canciones (1921-1924)
_
Isso é tudo, meus amigos. Espero que tenham gostado do que leram e viram sobre García Lorca. Eu mesmo preciso conhecer muito mais. Beijos e abraços a todos.
_
_
NO MEU HD CRANIANO: Uma enorme preguiça e vontade de ver uns filmes.

4 comentários:

Lu 66 disse...

e ainda não atendeu meu pedido...

Alessandro disse...

Mas, enfim... como atenderia se não tenho tanto tempo pra traduzi-los. E, além disso, eu sou da opinião que poesia não se traduz.

É um pouco cruel, então, o ato de postar algo assim.

Mas também, se não posto, sinto que fico devendo. Mas não, não prometi uma tradução. Os textos estão aqui. Não é um idioma intraduzível, mas não serei eu o tradutor das poesias.

Então eu sugiro: pesquise no Google. Algo como "Poesias traduzidas de Lorca" ou "Tradução de La Casada Infiel" (ou dos outros dois textos).

Creio, de verdade, fiz minha parte. Trouxe algum conhecimento. Agora é a vez de fazerem sua parte. Ou seja, se o que eu já trouxe não foi suficiente, vocês deveriam ir atrás do que falta. A internet está aí. Temos recursos enormes às vezes, mas nos damos ao luxo de sempre ficar esperando. Eu mesmo sou assim em algumas ocasiões.

Mas eu lhes digo, amigos: pode ser quando você se depara com um post sobre Lorca com poesias em castelhano. E pode ser em alguma situação crucial na vida. Se você não for por mãos à obra e não buscar uma solução criativa, dificilmente conseguirá ir à frente.

Vontade, pessoal. Criatividade. Ou estaremos condenados à mediocridade da qual tanto reclamamos.

Este recado pode ser pra Lu e pra Suika. Mas vale pra todos. Mesmo pra mim.

Beijos e abraços!

Alessandro disse...

E desculpem alguns errinhos. Estas palavras me surgiram no meio de uma madrugada.

Outros beijos e abraços!

Anônimo disse...

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