
Mulher jovem no jardim, de Giovanni Fattori.
Noite.
Com o passar dos anos, não se cansavam do breve singelo ato de parar e observar. João passou a dedicar-se à escrita, ao louvor daquelas pétalas. Quando o sujeito de seu encanto era ausente de seus olhos, era presente em suas linhas. Quantas poesias foram escritas, por quantos lugares Maria, a heroína de seu culto, se aventurara não se pode contar. Todavia, os pássaros estavam ali e Maria, naqueles quinze minutos diários, tomava conhecimento de tudo.
E admirava.
Sublimes, João e Maria permaneciam.
Um movimento a mais e tudo era perdido. A única regra do jogo.
Mas... se o movimento viesse de fora? João estarrecia à ideia de que um elemento intruso pudesse colocar fim ao que dava sentido aos seus dias.
No entanto, os dias prosseguiam indo e vindo, assim como os minutos de João e Maria, que gozavam o momento, inertes, porém repletos de amor e admiração.
Queria o autor permanecer neste quadro. Mas, o leitor sempre sabe, há a dinâmica dos fatos, das fatalidades.
Certo dia, estavam os dois a mirar-se, como de costume, quando a canção surgiu, ameaçadora, com letra rude, impassível, fria. Sabe-se que as estações do ano sempre vão suceder-se umas às outras, mas o encanto - e por isso tinha esse nome - prevalecia a qualquer condição.
No entanto, os pássaros voavam diferente.
Era como noutro idioma, nada ou pouco se entendia. Mas o andarilho era um estudioso. Pôs-se a pesquisar até que a mensagem se tornasse clara:
Deves voltar, Maria. Se à noite não estiveres pronta, eterna treva haverá.
Tremor em João. Tremor nos céus. Era verão. Da mesma forma como tudo se tornava mais escandalosamente belo, depois viria a tempestade que faria a beleza retrair-se no tempo de sua duração.
A ameaça permanecia.
A continuar
Beijos e abraços, pessoal!
NA MINHA VITROLA: JACQUES BREL - Le Moribond.
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