quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Estar ou não estar mais


Interessante o quanto cada um de nós pode estar tão perto de um limite, não? Num determinado momento, você está vivo, caminhando pela rua, divertindo-se com seus amigos, assistindo TV, fazendo qualquer coisa.

De repente, algo acontece. E você não está mais lá.

Hoje algo aconteceu. E eu poderia não estar mais aqui, ouvindo meus amigos da agência e digitando esse texto que crio de cabeça, pra contar-lhes que sim, eu estive perto de virar estatística.

Tinha pressa. Mal o sinal ficara verde para mim, fui atravessando, sem olhar para os lados. Alguém em uma caminhonete estava com mais pressa e ultrapassou o farol que, lógico, estava vermelho para ele. Uma fração mínima de segundo deve ter feito a diferença. Se eu estivesse adiantado exatamente em uma fração, a caminhonete teria me pego de frente.

Não cheguei a ser derrubado, embora o impacto tenha sido razoável. Sorte minha ser um cara grande. Mas a lateral da caminhonete deixou uns arranhões e uma dorzinha na altura do peito, causada pelo choque com o retrovisor. E Dona Vani vai ter trabalho pra lavar a camisa. Com certeza, ela prefere assim.

Ela estaria absolutamente sozinha, de outro modo.

Há, justamente hoje, coincidências e proximidades relacionadas a pessoas da família que já ultrapassaram o limite. Um prato cheio para os espiritualistas. Ela teria por companhia apenas suas dores, as causadas pelas ausências e as causadas pelo corpo já antigo que a trai.

Mas... importante: estou aqui.

Continuo aqui pra trazer minhas construções feitas de palavras. Estas mesmas que novamente virarão livro.

Para rir com meus amigos de trabalho e para rir e chorar com meus amigos de poesia.

Para me indignar ou ficar boquiaberto com as notícias que leio na rede.

Para o bilhar e a cerveja. Para os berros do papagaio, que se traduzem por "manhêêêêêêêêê". Para a Dona Vani reclamar da porta que esqueço de trancar ou pela migalha de pão no chão, para ela me contar suas histórias de vizinhos.

Para talvez conhecer uma que gostasse da minha companhia e quisesse andar ao meu lado, ao menos por um tempo, e que me inspirasse algo parecido em relação a ela.

Não. O cara da caminhonete não me tirou nada. Tudo o que fiz foi tirar o fone de ouvido. Não dá pra ficar escutando Rammstein nessas horas.

Havia muita gente. Algumas pessoas pararam. "Está tudo bem com você?". Tinham pressa, também. Precisavam seguir seu caminho. Não pedi a atenção delas, mas agradeço terem dedicado um instante da vida ao desconhecido levemente acidentado. "Ufa...", a desconhecida testemunha pensa, antes de um julgamento íntimo da situação.

O cara da caminhonete também parou. Não pensei em ordenar que me levasse a um hospital (eu que tenho horror a esses lugares...). Não pensei em registrar na polícia. Não pensei em anotar a placa. Não exigi nada dele e disse o mínimo sobre respeitar faróis.

No final, apenas havia um senhor, um mendigo que me pegou pelo braço e me conduziu pela avenida, sinal vermelho para nós. Nenhum carro passava, naqueles segundos em que atravessamos.

E isto não é ficção.

Mas estou aqui. E rir é bem melhor que chorar. :-)

Beijos e abraços, amigos!

6 comentários:

gaivota disse...

Quando somos bem jovens acreditamos que a morte seja algo remoto. Algo que geralmente acontece às pessoas idosas....Algo longe demais. Mas evidentemente que é uma perspectiva irrealista da vida....

Estamos morrendo todos os dias, a própria caminhada da vida é uma caminhada da para morte. Fato
intransponível da existência de todos os seres vivos.

Durante o percurso temos que escolher como viver , o que muitas vezes é feito de forma inconsciente, através da negação de que o tempo é um recurso que não é renovável. O tempo perdido, o tempo mal vivido não tem como ser modificado. São
prejuízos irreversíveis, mas que por inconsciência minimizamos.

Se é assim, então o que fazer com o tempo? Como escolher? Quais são as prioridades? O que não posso
deixar de fazer enquanto estou aqui? O que acontecerá comigo quando eu morrer? Quando morrerei? Devo me preparar para este evento? Haverá outro lado? Que me espera? Nada me espera??

Talvez fosse bom considerar as circunstâncias as vezes trágicas que ocorrem com os nossos irmãos de caminhada como uma lembrança de que estamos...mas não para sempre. E que aquelas perguntas precisam
ser respondidas verdadeiramente.

A morte ronda a cada momento. E a vida será eterna?

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Graças a Deus querido amigo você está bem!Cuide-se muito, como se despedem los hermanos...beijos de sua gaivota de estimação.

Kandy disse...

Que bom que você está aqui! Assim pude te ler e conhecer seu blog, que, aliás, adorei. Certamente serei uma visitante assídua, verificando de tempos em tempos se você continua aí. Parabéns pelas idéias, pela expressão, pelos pensamentos. ;-)

Marco disse...

É ale...

Imagine o talento que a sinuca nacional ia perder... pra não falar da poesia underground paulista...

A morte é o fim das possiblidades... só isso...

E parece que uma nova possibilidade se abriu não é verdade??

Abraço...

Anônimo disse...

Saudações com ótimos ventos !

Caro Alessandro, qtos seculos...
Saudades,viu.
Sabe esse teu post me fez lembrar Castaneda que diz que a morte está a sua esquerda ,e sempre a espreita.Cabe a nós,ter ela como aliada.
Que bom que está bem!
Cafunés e Muita Luz!
Su

H K Merton disse...

Cheguei aqui "via vento". Via Annie. E gostei dos seus posts, sobre esse último vou falar algo bem lugar-comum, porém sempre verdadeiro: "Pra morrer, basta estar vivo..." Que bom que você ainda continua se enquadrando nessa categoria!

Abraço!

Alessandro disse...

Meus caros, só posso agradecer as manifestãções de todos vocês. Vale a pena continuar por aqui e ter esse contato tão valioso. Vale a pena continuar para tentar, da minha forma, buscar alguma verdade sobre o mistério que é existir (gostei do que li no seu blog, Merton).

Obrigado, obrigado e obrigado!

Beijos e abraços!